Sérgio Redes
01/05/2008 01:22
Quando ouço comentários que a televisão afasta torcedores dos estádios uma imagem salta da minha mente. Fazia minha caminhada pelos lados do Parque do Cocó quando tive minha atenção desviada para um racha de futebol. Aproximei-me para ver de perto e notei a presença de um garoto irradiando o jogo.
Falava numa caixinha de fósforo e, fixada a ela, uma haste de arame imitando uma antena. De posse desse microfone improvisado o locutor narrava a partida: "Bola com Paulo César, passa para Magno. Atenção! Penetrou. Vai marcar. Saiu o goleiro! Pra fora! Pra fora! Muito sinistro esse Magno".
Na época quem usava o termo "sinistro" para realçar uma jogada ruim era o Januário de Oliveira da Rede Bandeirante de televisão. Nosso locutor esportivo de peladas de rua dava naquele momento uma prova cabal da influência das transmissões televisivas no futebol.
Escrevi algo parecido há uns quatorze anos e o escrito coincidiu com o tetracampeonato brasileiro na Copa de 1994, tempo em que o marketing esportivo começou a ser entendido como um poderoso instrumento e a ter um papel preponderante nas relações comerciais. O principal veículo de comunicação já era a televisão.
As redes de televisão se interessaram tanto que a Lei Pelé, promulgada quatro anos depois, em 1998, estabeleceu algumas normas a serem seguidas. O artigo 42 determina que o clube tem o direito de negociar, autorizar e proibir a fixação, a transmissão ou retransmissão de imagem de espetáculo ou eventos desportivos de que eles participem.
O parágrafo segundo do mesmo artigo diz que o disposto não se aplica a flagrantes do espetáculo ou evento desportivo para fins, exclusivamente, jornalísticos ou educativos, cuja duração, no conjunto, não exceda de três por cento do total do tempo previsto para o espetáculo.
Com as regras definidas os clubes passaram a negociar dentro das suas possibilidades e dentro da sua representatividade nacional. Evidente que os grandes tem um poder de barganha maior e são melhores aquinhoados enquanto a maioria corre atrás das redes de televisão como o naufrago que aguarda um salva vidas.
É o caso do nosso futebol. O contrato entre a Federação Cearense de Futebol e a TV para passar os jogos do campeonato foi de duzentos mil reais. Dividindo pelos participantes dá mais ou menos vinte mil reais para cada um. Não consigo entender como Ceará e Fortaleza entraram nessa. Melhor negócio para a televisão não poderia haver. Como diria o nosso locutor de rua: Sinistro! Muito sinistro!