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Em sociedade tudo se sabe

Sérgio Redes


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20/03/2008 01:14


O leitor ainda não deve ter reparado, mas a cidade de Fortaleza é única no país a ter dois estádios públicos para a prática do futebol profissional. O "Castelão" administrado pela Secretaria Estadual do Esporte e o "Presidente Vargas" controlado pela recém criada Secretaria Municipal do Esporte e Lazer.

Não é por acaso que os dois estádios levam nomes de governantes públicos. O "PV" como é chamado pelos torcedores foi inaugurado em 1941 na vigência do Estado Novo e o Castelão, em 1973, durante a ditadura militar. Comum aos dois governos, a utilização do futebol como fator de integração e um instrumento para mexer com o orgulho do cidadão.

Embora existam outros fatores, é inegável que a centralização da prática esportiva no Poder Público levou os dirigentes dos nossos principais clubes a se sentirem desestimulados em desenvolver o associativismo e a democracia dentro dos seus clubes. Não temos clubes e sim times de futebol.

Foi, portanto, com uma nesga de esperança que eu vi o Fortaleza, pressionado pela interdição do PV, dar uma maquiada no Alcides Santos e passar a realizar seus jogos de pequeno porte dentro de casa. Só cabem sentados quatro mil e quatrocentos torcedores, mas a diretoria estuda um projeto para tentar aumentar a capacidade para uns dez ou doze mil.

Jogar dentro de casa tem inúmeras vantagens. Em primeiro lugar o favoritismo que geralmente acompanha o dono do campo, pelo fato da equipe estar acostumada com o local, e depois porque os torcedores presentes sentem orgulho e vão e se acostumando a freqüentar o clube.

Pode ser que o Fortaleza tenha um prejuízo financeiro neste primeiro momento, mas pode aproveitar o embalo e agregar às partidas de futebol no seu estádio uma série de atrações para os torcedores tipo: sala de cinema com os vídeos da história do clube, sala de troféus, restaurantes, bares temáticos e lojas para venda de souvenirs.

Assim funcionam os grandes clubes do futebol mundial. Em dias de jogo, o torcedor do Barcelona sai de casa e passa o dia nas dependências do clube, participando de uma série de atividades. O Fortaleza faria isso numa escala menor, mas estaria arrecadando dinheiro para as suas despesas, além de proporcionar aos seus torcedores um convívio agradável.

Esse procedimento faria bem ao nosso futebol. Os dirigentes antigos não se interessavam por isso. Só se misturavam com a "mundíça" durante os jogos. Fora deles, freqüentavam o Country Club, o Ideal, Maguari, Náutico, Iate Clube e um ou outro considerado chique.

O zagueiro Pedro Basílio que faleceu recentemente sabia bem o peso deste elitismo. Entrevistado por um repórter que indagava se era verdade que gostava de tomar uma respondeu na hora: "Não bebo muito! Bebo em local errado: Se eu bebesse no Náutico ninguém falava mal de mim".


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