Sérgio Redes
13/03/2008 01:46
Vez por outra os políticos utilizam o valor metafórico do futebol nas suas declarações. Esse linguajar, produto de uma filosofia popular feita de gíria e filosofia é de fácil entendimento para qualquer classe social. Não é por acaso que o presidente Lula vive dizendo que "time que está ganhando não se mexe".
A construção desta linguagem deve ao técnico Gentil Cardoso e ao filósofo e técnico de futebol de praia Neném Prancha um reconhecimento. Suas frases tinham uma ironia refinada e quase sempre estabeleciam relações entre o futebol e a vida procurando ressaltar aspectos bem humorados do cotidiano.
Quando um pequeno ganhava de um grande Gentil dizia que "deu zebra" pelo fato de não ter o animal no jogo do bicho. Outra muito utilizada é "Quem não faz leva". Duas do Neném Prancha fizeram muito sucesso: "Se concentração ganhasse jogo o time da penitenciária não perdia para ninguém" e o "Pênalti é tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube".
Por outro lado percebe-se que elas vão rareando. Com o passar do tempo estes dizeres que marcaram um tempo moleque do futebol "romântico" estão sendo substituídos por outros mais adequados ao momento e que conseqüentemente exprimam os desejos e as ansiedades dos dias de hoje.
Um termo que vem sendo muito utilizado é o foco. É comum a jogadores e técnicos atribuírem a má atuação de uma equipe ao fato dela não estar focada. A queda de produção no segundo tempo das partidas, fato que caracterizou as atuações do Fortaleza no primeiro turno do campeonato levou seu coordenador técnico a explicar num desses programas de televisão com ares de dono da verdade: "Não estamos focados".
Outro dia na semifinal da Taça Guanabara no jogo Vasco e Flamengo Edmundo perdeu um pênalti. Entrevistado, após o jogo lamentou a perda do pênalti e disse que não estava preparado para bater porque estava parado há algum tempo e tinha perdido o foco. Ninguém entende direito o que é não estar focado e quem tenta explicar acaba não explicando coisa alguma.
Outra palavra que se incorporou ao mundo do futebol é atitude. Foi muito utilizada por técnicos e comentaristas na derrota brasileira na última Copa do mundo. Em outras palavras, o time entrou de salto alto, amarelou e não teve postura de vencedor. Segundo eles a seleção não teve atitude.
Com o futebol amarrado a esquemas pré-determinados é normal que as individualidades sejam atropeladas pela sistematização, daí um jogador quando entrevistado deve sempre dizer que está focado, tem atitude e que o grupo está fechado. Ele pode até não saber jogar bola, mas já tem meio caminho andado.
Fora de ritmo é o que mais se diz. Jogador não joga nada e a imprensa vem com essa. Outra, se mede o que jogador é pelo que ganha. São coisas de futebol que não tem lógica.
LUIZ DE ARAUJO