Sérgio Redes
28/02/2008 01:02
O nome varia de acordo com a região. No Norte é garimpo, como se procurassem ouro, no Nordeste chama-se peneirada e no Sudeste os garotos vão fazer experiência. Cem por cento dos jogadores em atividade no país já passaram por algum tipo de teste e foram aprovados.
Sempre tinha os apadrinhados. Alguém recomendado por um dirigente, por um olheiro ou por um torcedor. Os candidatos a jogador se sentavam na lateral do campo e um auxiliar técnico, de pé com uma prancheta na mão ia anotando e escalando as equipes. A voz autoritária perguntava. Joga em que posição? Um respondia: "meio de campo", o outro, "atacante" um terceiro, "zagueiro" e por aí ia!
Os chavões sempre presentes. Você joga de que? Jogo de teimoso! A ansiedade levava alguns garotos a responderem que jogavam em todas as posições. O auxiliar técnico perdia a paciência e reclamava: "Hei! Tu joga mesmo em todas? O garoto respondia tentando descontrair:"Brinco nas onze". O homem fuzilava: "Pode ir embora que aqui não é lugar de brincadeiras".
Quem conseguisse ser aprovado voltava para casa cheio de esperança e virava notícia no bairro em que morava. Os comentários corriam. Sicrano foi aprovado nos treinos lá do clube tal. E tem mais! Já pediram a autorização pro pai, a certidão de nascimento e seis retratos três por quatro.
Era assim que surgia um jogador de futebol. De maneira gradativa ia passando pelo infanto-juvenil, juvenil, aspirante, reserva e finalmente titular. Sempre se inspirando nos ídolos do clube, fazendo contatos com a imprensa, torcedores e dirigentes, num aprendizado diário que ia revelando os segredos da profissão.
Evidente que este tempo passou. A fase romântica do futebol descrita acima deu lugar à indústria do futebol. Hoje em dia, conforme atestam as matérias publicadas pelo O POVO e assinada pelo Bruno Formiga, as peneiradas estão rareando e às indicações de jogadores aos clubes é feita na maioria das vezes pelos empresários.
Vendo o futebol pelos lados utilitário e financeiro tem sido comum a estes empresários realizarem peneiradas. Basta uma declaração de representação de um ou outro clube dado por um dirigente e mãos à obra. O que não é comum é utilizar uma declaração sem data e a assinatura de um dirigente que já saiu do clube.
Foi o que aconteceu por aqui em setembro do ano passado. Setecentos candidatos pagaram vinte reais cada um e acreditaram que estavam fazendo testes para jogar no Figueirense. Depois dos testes vinte deles foram selecionados e comemoraram num jantar com suas famílias. Até hoje ninguém viajou. Os pais devem ter cuidado com essas coisas. Pelo dinheiro e, principalmente, pela frustração que causa nos garotos.