Plínio Bortolotti
[an error occurred while processing this directive]23/06/2007 14:07
Muitos leitores guardam a expectativa de receber o jornal de manhã com uma boa notícia em lugar dos costumeiros escândalos, operações policiais e violência. Na terça-feira (19/6) O POVO ofereceu este lenitivo: “Aluna da UFC é a melhor do Brasil”, provocando a reação bem-humorada de um leitor: “Taí, finalmente uma boa notícia na primeira página. Aqui em casa a gente brinca, antes de ver o jornal, sobre qual será a má notícia do dia”. Informava-se que uma estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC) fora a “única” a ter média 90 no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), “a melhor nota no Enade em todo o país”.
No dia seguinte, recebo correspondência perguntando se ela fora a melhor entre todos os alunos dos cursos avaliados pelo Enade ou entre os estudantes de Direito, pois o leitor havia lido “com espanto”, uma classificação diferente em um portal de notícias. Outro foi mais assertivo em sua correspondência: “O jornal deveria apurar com mais critério as notícias para evitar constrangimento”, dizendo que dois estudantes de outros cursos haviam obtido média maior do que a estudante da UFC. O leitor ainda castigou: “O cearense precisa fugir da megalomania de achar que tudo aqui é melhor e maior”.
Consultei a editora-executiva do Núcleo de Cotidiano, Tânia Alves, que admitiu o erro, a ele induzida, segundo disse, por informações da Coordenadoria de Comunicação Social da UFC. De fato, o boletim “UFC Fax” (18/6), distribuído em uma lista pela internet, inclusive à imprensa, traz a seguinte informação: “Melhor nota nacional é de aluna da UFC”. Falei com Ítalo Gurgel, coordenador de Comunicação Social da universidade, e ele assumiu ter divulgado a informação sem confirmá-la diretamente com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável por aplicar as provas, e lamentou o ocorrido, afirmando não ter havido má-fé por parte da UFC. Ítalo disse ainda que na próxima edição do informativo será feita a correção.
Quanto ao O POVO, na edição de quinta-feira, em matéria apensa à manchete da página 21, o jornal corrigiu o erro: “Cearense foi maior nota só [sic] em Direito”, sem assumir a responsabilidade pelo equívoco, jogando-o nas costas da universidade: “O POVO publicou, na edição da última terça-feira, a partir de informações divulgadas pela Assessoria de Comunicação da UFC, que a nota da universitária seria a melhor do país”. O texto explicava ainda que, segundo informações do Ministério da Educação, não havia como estabelecer critérios para comparar a nota de estudantes de diferentes cursos. Ao ombudsman, a editora Tânia Alves disse que a informação - “mesmo sendo a UFC uma fonte confiável” - não deveria ter sido publicada sem que se houvesse feito a verificação com o Inep. Reconhecimento que, a meu ver, deveria constar do texto de correção, pois, como costuma dizer a ombudsman emérita do O POVO, professora Adísia Sá: “Erro no jornal é erro do jornal”. Isto é, não importa quem seja a fonte ou a origem da informação, o jornal precisa fazer a sua apuração independente antes de publicá-la.
A propósito, não resta dúvida que o jornal publicou uma ótima notícia, e essas observações não diminuem em absolutamente nada o mérito da estudante da UFC Érica Siqueira Furtado, de 22 anos, a maior nota entre os estudantes de Direito do país. É um caso do qual os cearenses podem se orgulhar sem o temor de parecerem megalômanos. (O portal G1 publicou a tabela com os vinte estudantes que tiveram as melhores notas no Enade, um de cada curso avaliado - http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL55629-5604,00.html).
DOS PROCEDIMENTOS
Recebi longa carta de Déborah Lima, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Ceará (Sindjorce), a respeito do meu artigo de domingo passado, “Dos procedimentos”, no qual comentava a reação do Diário do Nordeste à minha coluna de 10/6, “Condutas impróprias”, criticando o jornal por publicar matéria possibilitando a identificação de uma testemunha, menor de idade, que denunciava vários crimes à polícia, assassinada dias depois. Em sua resposta, sem citar o ombudsman do O POVO, o Diário do Nordeste publicou dois depoimentos em matéria na edição de 13/6 - de Hélio Leitão (presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Ceará) e de Déborah Lima -, ambos avalizando o seu procedimento no caso, com a presidente do Sindjorce declarando textualmente: “Se o promotor entendeu, na ocasião da publicação, que a menina estaria correndo riscos, tomasse ele alguma providência imediata. Se a Imprensa teve acesso à informação, cumpriu seu papel”.
Na carta a mim dirigida, Déborah escreve: “Esclarecemos que, em nenhum momento, a nossa declaração ‘avalizou’ a conduta do Diário do Nordeste, até porque consideramos que os jornalistas do DN poderiam ter sido mais cuidadosos com a publicação da entrevista de Ana Bruna [de Queiroz Braga], evitando, inclusive, o fornecimento de detalhes que levassem a identificação da garota. Esta, inclusive, também é a opinião de alguns colegas do próprio DN”. Essas palavras são contraditórias com as divulgadas pelo Diário do Nordeste, portanto, disse-lhe, em resposta, que ela recorresse ao jornal que havia publicado o seu depoimento, caso houvesse ficado incompleto, obscuro ou distorcido. A presidente do Sindjorce insistiu em ver publicado o seu esclarecimento nesta coluna. Aí está. Fiz mais: preparei um apanhado geral do caso, desde a primeira matéria do Diário do Nordeste, em 10 de abril, até a troca de correspondência que mantive com Déborah Lima. Os leitores poderão ver aqui (http://www.opovo.com.br/opovo/ombudsman/706012.html) e tirar suas próprias conclusões.