Edgard Patrício
08/09/2007 15:31

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) anda às voltas com a liberação dos processos de plantação, comercialização e consumo de cultivares transgênicos no Brasil. A preocupação dos que defendem leis restritivas recai agora sobre a ameaça dos transgênicos ao algodão agroecológico e orgânico, de modelo de produção fincado na agricultura familiar. Segundo Pedro Jorge Lima, vinculado à ONG cearense Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar), essa é uma ameaça real. O Esplar iniciou há 15 anos uma experiência de produção de algodão agroecológico e orgânico no município de Tauá, apoiando e assessorando a Associação de Desenvolvimento Comunitário (Adec).
Pelo relato de Pedro Jorge, durante dez anos o algodão agroecológico padeceu com as dificuldades de colocação no mercado, "pois nenhuma empresa demonstrava interesse em estabelecer uma cadeia de forma permanente com volumes de pluma inferiores a 5 toneladas/ano". A partir de 2004, a empresa francesa Veja Fair Trade, que atua no comércio justo, "passou a adquirir o algodão cearense com um contrato de compra de médio prazo, pagando preços cerca de 100% superiores aos praticados no mercado convencional". Isso favoreceu a expansão da produção através de agricultores/as familiares de mais sete municípios cearenses. Desde lá, já são 235 agricultores/as que colheram cerca de 42 toneladas de algodão agroecológico, em sistemas consorciados com milho, feijão e gergelim. Esses plantios estão sendo inspecionados para obtenção do selo orgânico de produção.
O aumento do número de agricultores/as em plantios de algodão agroecológico é reflexo da demanda internacional por algodão orgânico, que, segundo Pedro Jorge, experimentou "crescimento exponencial nos últimos cinco anos". Mas a demanda ainda é maior que a oferta, tendo aumentado de 5.720 toneladas em 2000 para 32.326 toneladas em 2005, uma taxa média anual de crescimento de 93%. Outro movimento observado é a multiplicação de empresas que atuam no comércio justo e que direcionam sua ação "exclusivamente para a produção oriunda de organizações da agricultura familiar de países em desenvolvimento". Essas empresas chegam a condicionar a aquisição do produto à adoção de práticas que priorizem o desenvolvimento social e econômico, as relações justas de trabalho e a manutenção da qualidade ambiental.
É aí que entra a ameaça. Num contexto em que a produção de algodão agroecológico/orgânico de base familiar no semi-árido nordestino experimenta um crescimento sustentado, "a liberação do cultivo de algodões geneticamente modificados é uma grave ameaça". Isso porque a agricultura orgânica não admite, "sob qualquer hipótese, o emprego de organismos resultantes de transgenia". No caso do algodão, o que acontece é que "todas as espécies de algodoeiro encontradas no País são sexualmente compatíveis e os cruzamentos são mediados por insetos polinizadores. A presença de lavouras de algodões transgênicos em locais onde vem crescendo a produção agroecológica/orgânica é um risco real e preocupante", pelo risco de contaminação. Pedro Jorge ainda vai mais longe, ao identificar que, com uma eventual implantação de lavouras transgênicas, os produtores/as nordestinos de algodão agroecológico/orgânico verão "abortada essa importante retomada da atividade algodoeira, na região, agora em bases sustentáveis".
Serão centenas de famílias no Nordeste afetadas por essa reversão, que hoje se dedicam à produção do algodão agroecológico/orgânico e em bases mais justas. Basta salientar que em 2007 toda a produção de algodão desses agricultores/as familiares é vendida em pluma, com maior valor agregado, "muito diferente do que ocorria em passado recente, quando a comercialização era exclusivamente de algodão em rama, vendido a corretores que repassavam às usinas de beneficiamento". E, nesse caso, todos nós sabemos onde ficavam os lucros. (85 3252-2410 ou pedrojorge@esplar.org.br)