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Ecologia

ECOLOGIA

Novo manifesto

Edgard Patrício


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19/05/2007 15:43

(Foto: Alcides Freire)
(Foto: Alcides Freire)

Há três semanas seguidas a Coluna vem discutindo a implantação do empreendimento Praia do Pirata na região de Amontada (CE), que tem à frente o empresário Júlio Trindade, através da Praia do Pirata Turismo e Empreendimentos. O empreendimento se constitui num conjunto de equipamentos (hotéis, pousadas, instalações para esportes náuticos), destinados ao turismo de massa. A Coluna repercute um debate que teve início com o lançamento de um manifesto de um grupo de mulheres das comunidades de Caetanos de Cima e Amontada (Grupo de Mulheres de Caetanos de Cima, Movimento de Mulheres Pescadoras do Litoral Cearense, Movimento de Mulheres Amontadense, Fórum Cearense de Mulheres) contrário as ações de implantação do empreendimento.

E novos depoimentos sobre a implantação do empreendimento chegaram à Coluna. O grupo de mulheres que elaborou o manifesto inicial voltou a se posicionar. Elas tiveram dificuldade em enviar à Coluna o seu posicionamento, pois o acesso à internet pelos comunitários é complicado. Na mensagem, e com relação aos argumentos colocados pelo grupo empresarial, as mulheres do grupo se dizem "cansadas" de ouvir o mesmo "repertório". Mas reconhecem uma vantagem naquilo que a Coluna veiculou sobre o posicionamento do empreendimento. "A única vantagem desta vez é que a contraposição do Pirata, a descrição de seu projeto e objetivos só serviram para comprovar tudo que descrevemos no manifesto". O grupo identifica "uma série de infinitas contradições", que serviriam para esclarecer seus "verdadeiros objetivos".

Ainda segundo o grupo, na descrição do projeto está explícito que "não há nenhuma intenção de contribuir com a melhoria da qualidade de vida do povo local". Pelo contrário, o mesmo pretenderia substituir suas manifestações culturais por práticas como windesurf e outras de mesma natureza, desconhecidas do cotidiano das comunidades. "Esta prática tem um nome: aculturação dos povos litorâneos", conclui a reflexão. O grupo considera "infeliz" a argumentação do empreendimento quando cita como um de seus objetivos a "construção de uma imagem própria e memorável (natural, histórica e cultural)". E argumenta que quando ele assim se posiciona, "ignora totalmente a construção histórica, cultural e natural de um povo que nasceu e cresceu naquela faixa litorânea onde vivem até hoje". Demonstra, o empreendimento, "o desconhecimento das lutas, conquistas, tradições, bem como suas relações com o meio em que vivem e a importância dessas relações sob todos os aspectos". Não haveria, assim, necessidade de construção de imagem própria, "ela já existe"!

O grupo de mulheres pergunta, como "pode então, falar em desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida para esses povos? Como pode falar em conservação da natureza se tudo que propõe é modificá-la?". Outra contradição que o grupo identifica é em relação ao "reforço da identidade cultural", indicado pelo empreendimento. Nova indagação. Como isso aconteceria, "substituindo as manifestações culturais por outras desconhecidas por todas nós?". Quanto à "elevação da auto-estima" e "ampliação da cidadania local", objetivos defendidos pelo empreendimento, o grupo de mulheres faz uma nova reflexão. "Auto-estima de quem? Quem perdeu-a? Porque perdeu? Queremos reafirmar que nosso único e principal problema se chama Júlio Pirata. Até que ele aparecesse, todos nós vivíamos em paz".

Numa última análise, as mulheres questionam a noção de cidadania alardeada pelo empreendimento. E novos questionamentos: "Que cidadania é esta que nos é proposta? Se a comunidade está sendo destituída de seus bens mais preciosos: sua terra, trabalho, sobrevivência e dignidade? Em que momento a população local será beneficiada diante de toda descrição apresentada? Que comunidade local ele se refere? Pois até a implantação do projeto, a comunidade local já terá sido expulsa". E finalizam com sua compreensão de desenvolvimento. "Queremos deixar bem claro que desenvolvimento para nós representa a garantia de terras livres para vivermos, respeito às comunidades tradicionais e nativas e à sua cultura, garantia de nossas mesas fartas de alimentos, garantia de nossos espaços de sobrevivência".

Assinam o novo manifesto o Grupo de Mulheres de Caetanos de Cima, Movimento de Mulheres Pescadoras do Litoral Cearense, Movimento de Mulheres de Amontada e Fórum Cearense de Mulheres.


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