Demitri Túlio
19/07/2008 00:17
CASOU-SE SABENDO da inquietação da mulher. Ela mesma pôs em pratos limpos a predileção pela infidelidade. Não sabia ser de uma criatura só. Amava sim o noivo e o amaria depois de casados, mas não o enganaria. A traição era certeza. Prometeu apenas fazê-la com discrição e nada de primos, sobrinhos ou alguém do mesmo sangue até o 3º grau.
TAMBÉM FAZIA PARTE do trato os rendez-vous acontecerem em outra cidade que não fosse a do casal. Na Região Metropolitana e, preferencialmente, em um cu de mundo desterrado dali. Ela usaria outro nome e não beijaria ninguém com a aliança no dedo.
ARRIADO DE PAIXÃO e devotado ao amor que a fulana, verdadeiramente, nutria por ele, matrimoniou-se com bênçãos e banquete. Quando a mulher sumiu, logo após a lua de mel, quis matá-la por asfixia. Arredondando e diminuindo as mãos grossas no pescoço bem desenhado da incomum. Em vão. Não adiantava estrebuchar, dar de valente.
NÃO FORA LUDIBRIADO. Desde o pedido de noivado, ela havia sido honesta. A fraqueza era coisa que vinha de nascença. Não herdara da mãe, absolutamente. A fidelíssima era incapaz de formular qualquer pensamento lascivo. Não andava em festas, não chupava manga (ou frutas que exigiam o solver), nem bebia vinho. Não usava calça comprida, nem roupa alguma que denunciasse a exuberância dos seios, do busanfã e do vértice entre coxas que se partia na lycra branca.
HAVIA PUXADO O PAI. E não raro, nos fins-de-semana, flagrava-o abocanhado em cotrovias nos botequins de esquina próximos de casa. Não respeitava distância nenhuma e pouco importava o que chegava aos ouvidos da esposa. Uma besta. A mãe já havia batido na boca da filha, surrou-a, após ouvir dela que seria como o pai.
PODERIA ATÉ SE CASAR, mas não teria um macho só. E faria melhor, não inventaria que estava confusa, que vivia um momento especial da vida e por isso o fraquejo e a traição. Não. Seria franca e quem a quisesse comeria de seus bocados, mas não teria exclusividade. Nunquinha.
FIZESSEM ISSO AS MULHERES traídas e talvez fossem homens outros. Preencheriam os tempos das namoradas (odiava ser chamada de esposa, companheira, parceira ou a mulher de beltrano), mandariam mais flores, escreveriam bilhetinhos, tomariam mais sorvetes de menta flocada e, sempre que pudessem, ligavam qualquer hora para saber como estava indo o dia.
E SEM FRESCURAS OU MIADOS no diminutivo. Odiava também os apelidos. "Morzinho", coração, vida, sol do meu dia, filhinha, lua da minha noite, biluzinha, amadinha, plique-plique, minha eternidade, pipipi... O pai derramava-se em palavras enfeitadas com a "esposa", mas era um esterco de porco.
FEZ COMO O PAI, mas diferente no trato e na sinceridade. O homem que casasse com ela, saberia de véspera que usaria chapéu para esconder as flores e os cornos. E não choramingasse ou, depois, fosse ameaçá-la de morte ou bofetadas. Ao contrário da mãe, não havia nascido com vocação para égua e nem predestinada a ser morta por um machão que via na monogamia uma violência.
FEZ COMO O PAI SIM. Depois de experimentar dezenas de homens, resolveu se dar ao desfrute com mulheres. Cansou das barbas furentas, das ejaculações precoces, dos piadistas, dos barrigudos, dos casados indecisos, dos que só pensavam em futebol, dos enrustidos, dos donos da verdade...
TEVE LAMBANÇA COM MEIO mundo de mulheres. E o marido? Uma vez por mês transava com ele. Bastava. Os cotidianos foram rareando o apetite sexual. E só não o mandava embora porque cuidava bem dos filhos e do lar.