Demitri Túlio
12/07/2008 00:51
SABIA QUE ESTAVA sendo traída. O marido andava esquisito e não a procurava há mais de seis meses. E ainda não havia motivo pra fornicação rarear. Estavam longe de completar 10 anos de casados e só um rebento apareceu até ali. Ela era motivo de atração e fuxicos nas fazendas de cana-de-açucar. Não era difícil pegar-lhe na lida, montada num trator, apenas de biquíni. Um mulherão, seios além da propensão e batatas alopradas.
ESTAVA ENCAFIFADA, vexada com o desprezo. Não era mulher de passar chifres. Não. Fogosa, não faltariam cáftens, galos e cachorros. Mas, o adultério não a apetecia. Morreria de um homem só, mesmo que o safado estivesse aprontando. Foi assim com a avó e a mãe. Cabeças floridas das puladas de cerca dos maridos, porém elas ali: de uma fidelidade canina.
DEIXOU DE PROCURAR nas golas das camisas bocas de batons. Também não farejava mais perfume barato e nem esquadrinhava manchas no front das cuecas. Cansou. Não havia vestígio sequer, um fiozinho de cabelo que não fosse seu ou do próprio homem. Nem um bilhete no bolso, nem o dinheiro voltava faltando. Diacho! Era o cão em forma de rapariga, não deixava rasto!
OU ENTÃO ERA UM homem. Um dos viados que faziam enxame na Santo Agostinho, rua da devassidão. Não, mas o esposo não. Era desprovido de vocação para desmunhecar.
O TEMPO FOI SE INDO e ela deixando pra lá o que não havia remédio. Mesmo nas noites que o calor lhe incendiava o pudor. Corria pra cacimba, no quintal, e ia até o amanhecer se lavando. Lua daquelas, viu que o marido despertou e lhe espiava por entre as brechas do janelão. Greta escancarada, acocorada em cima do anel do poço, animou-se com a suposta ressurreição de Lázaro. Coitada, pura ilusão.
TESTEMUNHOU TAMBÉM, ponta de pé, após seguir seu homem até o curral, coisa que a fez quase queimar de febre. Ela agora, ainda nua, cubava-o pela fresta da porta de gemer a dobradiça. Nu, hirto, o marido percorria com as mãos o dorso de uma fêmea. Sussurrava algo nas orelhas da jumenta e minutos depois, equilibrando-se num tamborete, ia e vinha segurando as ancas do animal. Ali mesmo, vomitou o que tinha e o que não havia no estômago.
FEZ DE CONTA QUE não havia acontecido nada. Apenas passou a ter nojo do sujeito. Não sabia como proceder numa situação dessas. Se fosse uma mulher, um baitola... Até vá lá, mas aquilo! Permaneceu mutema, silente. Ser menos importante que uma jumenta! Dizer o quê, fazer o quê? A vingança veio voluntária. A porteira da fazenda era passagem de caminhões que compravam jegues pra virar charque no interior da Bahia. Não se fez de rogada e aceitou a primeira oferta pela amante do marido.
ISSO FOI DE MANHÃ. À noite, o esposo se aperreou com a ausência. Teriam deixado a porteira aberta? Ele e o vaqueiro saíram, lampiões nas mãos, a campear pela bicha. Gritaram, foram a riba e a baixo, e nada. Em vão. O homem aboletou-se numa profunda depressão regada a cachaça e confinamento no estábulo. Quando não estava lá, açoitava o filho e ameaçava a traída.
NUMA DESSAS, A MULHER berrou pra quem quisesse ouvir que a amante, a dadivosa, havia virado charque. Desterrada pras bandas da Bahia. Um dia depois, o viúvo apareceu enforcado entre os punhos de uma rede. Disseram que a viúva era a culpada.