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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Arroz queimado na panela


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05/07/2008 01:30


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FALTAVAM DOIS DIAS para o aniversário de 65 anos quando o marido resolveu morrer. Era inconveniente até na hora da morte. Um homão, cinco anos mais velho que ela. Advogado benquisto na praça, era o melhor achador de gretas na lei e exímio ator melodramático no Tribunal do Júri. Ela detestou, calada, quarenta anos de casamento, desamor e seis filhos. Quase todos também viraram rábulas. Amava as crias...

O CORPO, UMA MONTANHA de banhas, estava ali ao seu lado. Na cama onde quase nunca chegou à lua. Ele não. Ia rápido a Marte, ofegava feito boi, a lambuzava de suor e depois adormecia num ronco egoísta. O cadáver estava ali. Sabia da morte porque um morto não bufa.

FOI AO BANHEIRO, ASSEOU-SE, ajeitou-se no toucador e trocou a camisola sem graça por uma roupa de ir embora. Nem alardeou, nem deu berros por causa da morte ou qualquer resquício de lembrança. Ligou para o filho mais velho e avisou.
- Teu pai amanheceu morto. Está na cama. Deve ter morrido do coração.

NÃO ESPEROU POR lamúrias e desligou na cara do rebento. Uma cópia fiel do velho. De malas na mão, a espera de um táxi (não sabia dirigir porque o marido nunca deixou, apesar de ter carteira), viu os filhos, que moravam fora, chegarem aperreados.
- Mãe, tá indo pra onde?
- Viajar pra comemorar o meu aniversário de 65 anos!
- E o pai?
- Tá lá, mortinho da Silva.
- Mãããããe!
- Você sabia que daqui a dois dias é o meu aniversário?

DESPEDIU-SE COM um risinho sincero e foi-se. Edilaura deu as cordenadas ao chaufeur e seguiu pra casa de uma velha amiga. Uma égua também. Na porta, foi recebida por ela e o marido. Um farsante que se transformava em gentleman na frente das visitas e dos estranhos. Mas era um cavalo com a mulher.
- Edilaura! Tão bonita... Vais viajar?
- Sim. Vou comemorar meu aniversário de 65 anos. É depois de amanhã. Não lembra?
- Ah, claro! E o Zé Haroldo?
- Morreu.
- Hein! Morreu?
- Morreu. Não anda mais, não respira, não dá mais ordens, não berra e deixou de proibir. Não grita pelos chinelos, não reclama mais da cebola no arroz e não peida mais no quarto. Não palita nojentamente os dentes, nem nunca mais me dará sabonetes Alma de Flores como presente de aniversário! Ah, também nunca mais usará aquelas cuecas horrorosas, frouxas e as vezes suja das pomadas das hemorróidas...
- Mulher, cruzes!
- Estou aqui para me despedir. Mando cartas avisando onde estarei.
- E o enterro?
- O meu? Ainda não pensei. Vou fazer 65 anos e parece que nasci hoje de manhã.

A VIÚVA FOI INDO EMBORA no mesmo táxi que a trouxe. Pegaram o caminho do aeroporto. A amiga, encostada na porta, pensou alto e sem querer balbuciou:
- Quem me dera tal sorte. Talvez não tenha feito por merecer. Quem sabe nos meus 65 anos, Deus não me dar esse presente!?

O MARIDO, ANTENAS sintonizadas, pegou.
- Querendo, me mato. Com um tiro no peito ou bebo ácido...Queres? Duvidas que não sou homem para tal?
- Faria-me um favor.

DEU RABIÇACA E CAMINHOU pra cozinha. Alguma coisa queimava e o marido dava escândalos quando o arroz esturricava na panela.


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