Demiti Túlio
28/06/2008 00:44

FICAVAM TODOS ASSOMBRADOS com a história do Aracati. Aperreados com a proximidade de agosto e setembro, quando os ventos se esgoelavam em qualquer janela entreaberta ou greta de porta. Era o tempo da chegança pra valer do talzinho. Metia medo nas noites frias de Orós. Uma rebenteira gelada de bater os queixos e arrepiar de instante em instante.
HAVIA NEVADO NO ORÓS? Capaz. Era possível. O vento fino na espinha, congelando a ponta do nariz e orelhas, amofinando os documentos, fazendo virar pedra o bico dos peitos das moças e não-donzelas, era bom e era ruim. Enlouquecidas por um agasalho, alguém que lhes esquentassem os pés. E aí, uma ou outra aparecia embuchada. Tinha sido o Aracati! O Aracati? Sim, arrastava pras beiradas do açude e mandava brasa.
AQUELE, AQUELE OUTRO e aquele acolá eram rebentos do Aracati. Todo mundo dava conta. Mães solteiras e faladas porque foram arrastadas pelo Aracati. Os meninos, vinham quase peixes. Tucunarés aloirados, dourados, olhos azuis, pintas pretas e taludos. Pele queimada de sol.
ERAM DIFERENTES. NASCIAM já sabendo nadar, respirar debaixo d´água e pular dos precipícios quase fazendo arte. O Orós adorava. Pai, na verdade, é o que cria. O açude não lhes deixava faltar tantin. Bóia, o de beber, canoas de encontrar caminhos e as beiras molhadas e férteis.
A NÃO SER QUE FOSSE seca. Muita friagem num ano, era sinal de tempo estiado no outro. Esturricado. E não se vive no sertão se não for em função da água. Nem que seja das enchentes, muita água de alagar e até matar. Melhor que morrer de sede, à cata de vão d´água ou qualquer coisa que se derramasse.
ÁGUA EM TEMPO DE ESTIAGEM, arremedo, é riqueza. Mas não se nega copo d´água. Não pode. Nunquinha. Mesmo que cada gota esteja contada pra cada filho ou folejo temporão. Sobra de barreiro, barrenta, grossa de cimentar o bucho. Mas fazer o quê?! Quem nega, escrevesse, morreria afogado ou implorando por uma gota. Não haveria outro destino.
UM DESSES CASOS AINDA tem testemunha. Filho do Aracati, diferente dos outros, quis cercar o Orós. Dizendo-se herdeiro e dono, senhor das terras férteis e de qualquer beiral do açude, proibiu quem ia ou queria vir. Tanto assim que morreu muita gente de sede e de fome. Até os peixes! Não havia quem pescar e quem nascia não morria.
MAS FOI PIOR PARA o coisinha. Numa viagem que fez à Capital, deslumbrou-se com tanto mar que se afoitou. Afoitou-se, entrou depois do pescoço e o sal foi entrando pela boca. Tanta água, afundou.
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