Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Das Antigas

DAS ANTIGAS

Sabugos, calcinhas e intimidades

Demitri Túlio


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto Indique esta notícia  Imprima esta notícia

14/06/2008 00:31


Clique para ampliar foto


SIM, SIM! EM CASA de muita gente, a privacidade quase não existia. Sobretudo onde viviam filhos, pais, avós, bivós e parentes que uma vez por mês vinham do Interior para se consultar na Cidade. Família era quem nascia do mesmo varão (o bode velho fazedor de filhos). E, também, os agregados. Sem ser de sangue, mas que iam se encostando com o tempo ou a necessidade.

PRETINHA, A DOCEIRA, era bisneta de escravos e cozinhava na casa desde o tempo do cão. Sabia do que se comia e mandava nas panelas. E pelo comer se sabe qual a pindaíba de cada dia. Língua solta, saía dizendo que a casa do doutor era mais de aparência. Bucho que é bom? Nan! Fossem chafurdar o monturo e a prova estaria lá. Casca de ovo branco (marrom era mais caro), latas de sardinha e carne de lata.

DONA IRANILDE, A LAVADEIRA, era a mulher que fazia quarar. Engomadeira e pitadeira de Arizona sem filtro. Gostava de se acocorar, mas não fumava enquanto passava. A patroa já havia resmungado. "Nilde" dava conta da vida de cada um pelas trouxas de roupas que ensaboava. As cuecas e calcinhas sujas entregavam intimidades. Tinha a mania de cheirá-las pra ver como ia o casamento. E não foi só uma vez que, bisbilhotando o álbum de fotografias, fuxicou que a mesma roupa da Senhora havia sido usada em pelo menos cinco festas no mesmo ano.

SABIA ATÉ DO TAMANHO das vergonhas do marido da patroa. O bacharel usava cuequinha "p". Tanta arrogância para uma coisa tão miúda. Mixaria! Vai ver era por isso que vez ou outra uma cueca "g" surgia, do nada, na trouxa que falava. Aperreada, a esposa mandava que desse fim. Dava nada! Rompia portas mostrando e querendo saber, das outras lavadeiras do bairro, quem cabia ali.

SEU CHICO-ESGOTA-FOSSA era outro. Movido a pinga, depois que terminava o serviço nojento, de botequim em botequim ia fiando sobre os cagões. Oh, povo lagarta! Numa rua de penicos e moitas de bananeiras, a inveja corria solta contra os poucos que possuíam fossas. Não perdoavam. A descarga de lá? Ainda é no balde e o papel higiênico é daqueles que parecem uma lixa? Prefiro o jornal de ontem ou sabugos!

FAMÍLIA ERA TODO esse povo e ainda os que nasciam e viravam afilhados do patrão e da patroa. Uma récua. E, mesmo depois de terem deixado de trabalhar na casa (por velhice ou porque queriam ser mais dono da casa que os donos), voltavam no dia do aniversário do apadrinhado. Também nas festas de fim de ano, no tempo de comprar o material escolar, na primeira comunhão, crisma, menarca... Os afilhados, muitas vezes, viravam empregados dos filhos do patrão e eram como se fossem da família. Hum!


Compartilhe esta Notícia o que é isso?

  • Linkar esta matéria ao Delicious
  • Linkar esta matéria ao Menéame
  • Linkar esta matéria ao Technorati
  • Linkar esta matéria ao My Yahoo
  • Linkar esta matéria ao Bookmarks
  • Linkar esta matéria ao Rec6

Comentários



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato