Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Das Antigas

DAS ANTIGAS

As hemorróidas

Demitri Túlio


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto Indique esta notícia  Imprima esta notícia

07/06/2008 01:09


Clique para ampliar foto

COMEÇOU A PENSAR na, finitude, assim que se assentou para o banho quente na bacia em que cabia apenas o redondo disforme do busanfã. As hemorróidas comiam-lhe o juízo e o humor. E foi ao céu três vezes, porque não percebeu que a água ainda fervia. O entremeio do fiofó, rosado, transformou-se em uma cabeça de pimenta vermelha. Era como se tivesse nascido um botão de rosa encarnada (com espinhos) entre duas dunas ardidas de sol infindo... Como doía!

E COMO LATEJAVA! ESTAVA perto do fim, resmungava baixo no banheiro trancafiado. Nu, entalado feito um paxá, só parava pra pensar na vida quando a crise das hemorróidas se asseverava. E ali, doído, emendava uma reflexão emocional e exagerada atrás da outra. A começar por quando avistava o bucho, flácido e descomunal. Na pressa dos dias que ia vivendo, de qualquer jeito, ainda se imaginava magro. Barriga de táboa, lá dos 20 e poucos anos.

MAS HÁ NA VIDA duas coisas cruéis que, um dia, lhe fizeram ver o real. Espelho e uma crise de varizes das veias anorretais. Inevitavelmente, servem para repassar o tempo. E como não sabemos lidar com ele, “ele ri”. Zomba e espera por esses dias terríveis, em que se costuma vestir os trajes de um Jó. Lamúrias. E aí, ele (o tempo) bate à porta...

ZOMBA PORQUE SABE passar e nós não sabemos. Desesperar, por causa de uma crise no fiofó e achar que o mundo estava por um fio? Não ia deixar de comer o que a médica recomendou prudência. Nunca. Aliás, a ida à médica é uma história à parte. A proctologista sabia da vida íntima (sim, porque hemorróida é intimidade) de meio mundo da cidade miúda.

E POR SER JEITOSA, um amigo a recomendava pra outro. Dedos finos, mãos de seda. Discretíssima. Ela e a atendente. Uma senhora forte (negrona) que virava o rosto, sustentava uma cortina estampada de flores e, feito uma aeromoça, sussurrava as instruções.

“O SENHOR, POR FAVOR, ARREIE as calças e a cueca até o joelho. Deixe o corpo de ladinho e traga as nádegas um pouco pra fora da cama”. Hummm, tá inflamadinho! Mas nada que uma bisnaga de Erva de Bicho, ou Proctly, e banhos de assento não resolvam. A única coisa chata era a sala de espera. Um olhando para o outro e no desconforto da poltrona calorenta de couro preto. Inadequada.

SIM, NÃO DEIXARIA de comer o vatapá apimentado com a jalapenha mexicana. Não deixaria de fazer chover o molho de malagueta na panelada gorda. Pimenta-do-Reino! Comeria de colher e, na feijoada, pimenta-fantasma da Índia. Beberia cachaça, banana e farofa, sim. Ora, e o tempo? Que se roesse de inveja. Ele (e as hemorróidas) passariam. E o tempo, não. Ficaria a arrodear as pessoas. Feito carcereiro. Aprisionante.


Compartilhe esta Notícia o que é isso?

  • Linkar esta matéria ao Delicious
  • Linkar esta matéria ao Menéame
  • Linkar esta matéria ao Technorati
  • Linkar esta matéria ao My Yahoo
  • Linkar esta matéria ao Bookmarks
  • Linkar esta matéria ao Rec6

Comentários



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato