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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O comer

Demitri Túlio


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24/05/2008 01:32


CERTEZA! ERA A CASCA do queijo que comia. Tinha mãe que não deixava filho miúdo provar. Cresceria rude, embuanceiro, casco duro, tinhoso. Era por isso: mesmo depois de homem feito e barbado, não deixava beija-flor em paz. Tantos aparecessem, quantos comeria o coraçãozinho cru. Prometiam pontaria certeira em moleira de pomba de arribação em brejado de arroz ou rabo de calango.

E TERIA OS COMERES a ver com o tino e a vida de quem ia nascendo? A bivó entendia que sim. Repetia pra todo mundo que nunca comia arroz queimado de panela. Quem se viciou, nunca teve sorte na cama. Além do mais, viveu dependente da lactopurga que vigiava do criado mudo a gasturenta.

TAMBÉM NÃO CAÍA na tentação de comer bolo quente. E não era por causa da dor de barriga. O perigo era não arranjar noivo bom. Vinham letrecas, mequetrefes e muquiranas bom de prestar. Soldados de polícia barrigudos, rábulas nojentos, delegados desviados ou gente que não conseguia se emendar na vida.

ALÉM DO MAIS, NÃO misturava algumas comidas e guardava certos dias do mês. Quando as regras desciam nos paninhos, não comia da hóstia santa. Pra ela, era um sacrilégio entrar na igreja se esvaindo em cólicas e em vermelho abundante. Era dessas de encher um Jaguaribe e demorar a estiar. Por esses tempos, evitava chupar tamarindo e comer cajarana verde com sal. Corria dos azedos.

MANGA COM LEITE, tinha a notícia que alguém da família comeu e morreu duro. Mas vejam uma coisa, o falecido e a finada antes da mangaroba sobremesa haviam feito extravagância. Nem era festa e, assim mesmo, amanheceram na ira de engolir um boi. Não o fizeram, mas compraram no batente da casa, ao homem do cavalo e asas de madeira, uns sete quilinhos de fígado gordo.

E COM FÍGADO, TODO mundo sabia, havia de se tomar algumas precauções. Se comessem, não poderiam se deitar e dormir. Não se metessem a ler. Apurariam a vista, escurecia e arriscava não tornarem jamais. Não poderiam barrer, baixar a cabeça e nem fazer movimentos bruscos. Ouvir rádio, nem pensar. Pois bem, mesmo empanturrados, foram tentados e fornicaram...

ESGALAMIR-SE NUNCA foi boa coisa. Ter mais olho que barriga, peiticar o prato dos outros. Comer rápido para caber mais e mais. Cheirar tudo que se vai comer, não resistir e jantar comida de panela até de noite... Comer, comer e comer. A bivó dizia que somos o que comemos. Talvez. Muita gente por aí, tem cheiro de panelada e outras trolhas.


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