Demitri Túlio
17/05/2008 01:16
(Sugiro a leitura dessa história ao som de "Rosa", de Pixinguinha, na voz de Marisa Monte)
DO ALTO DA CASA DA PEDRA, alcançava o açude do Cedro por inteiro. E pela última vez testemunhou sangrá-lo de água de inverno abundante. Havia tempo. Sabia que não encheria mais por causa sua. Dele, homem feito, o mais velho de uma família de dois irmãos, de pais finados e da herança da maior padaria da cidade. A única. Pães de cheirar muito e cheirar mais ainda, quando se apaixonava.
A CASA ERA DO TAMANHO da padaria Madrugada, de corredores tiranos, de cômodos de morar em cima e uma água furtada de enxergar a rua principal e a matriz Remédios, onde planejava se casar. E porque, durante um tempo, alimentou um doído desengano plantava-se na ventana aberta. A contar jumento ou tropas deles. Animais de trazer trigo, tijolins doces, verdura, madeira e novidades do carteiro.
JÁ ESTAVA OCTOGENÁRIO quando o irmão mais novo padeceu e, finalmente, pôde cortejar Macândida e propor levá-la aos pés do altar. Distante, num tempo que ainda era seu, a viu moçinha ir comprar leite e pão na Madrugada. E por encanto subitâneo teve o coração lanceado por ela. Ela também. Mas não se falavam de palavras de sair da boca.
CORRIA-LHE, SERVIA-LHE. Alimentava as vacas da fazenda com o trigo mais sublime, o bagaço de cana mais doce e o capim serenado das ribeiras do Cedro. Dava o melhor dos leites. E pão, quando chegava perto da hora de Macândida surgir. Ele mesmo curtia a farinha e vigiava as fornadas. Olor de assanhar idílios de madrugadas na cidade.
E PORQUE QUEDAVA-SE mutemo quando via a moça, pediu ao irmão que fosse ao pai dela intermediar a mão de Macândida. Não agüentava mais de ausências. Foi sim, eram amigos afetuosos e não se negavam favores. Porém, o caçula nunca havia visto Macândida...
AO VÊ-LA, PERDEU-SE. De agonia e remorso. Arfante, também lanceado, decidiu por pedir pra si, as núpcias com Macândida. O velho, que não sabia de nada, e fazia gosto pelos herdeiros da padaria fez dele o noivo. Obediente, a moça resignou-se.
FORAM TEMPOS DE DOLOR, principalmente, para o mais velho e ela. Mas não houve briga nem promessa de desgraça. Ficaram sem se falar e o foi indo a vida. Da água furtada, o irmão mais velho viu o Cedro secar e nunca mais encher. Contou, também, tropas e tropas de jumentos. De encher cadernos e o tempo.
APESAR DO DESENGANO, os pães ficaram ainda mais cheirosos e a bem querência aumentou. Foi o irmão esfriar no túmulo e ele aguardar por ela. Voltaria! Compraria leite e pão na Madrugada. Sabia. Escolheu o melhor trigo pras vacas e voltou a vigiar os fornos. Depois do sétimo dia, ela tornou.
FINALMENTE JURARAM "aos pés do Onipotente", na matriz dos Remédios. Fizeram "preces comoventes", remiram "desejos em nuvens de beijos" e feneceram um aniversário depois do altar.
(Com inspiração de Tarcísio Matos)