Demitri Túlio
10/05/2008 01:51

ERAM SEIOS DE QUEM já havia amamentado muito. Fartos para um ano inteiriço, mas firmes. E foram muitos a quem deu de comer e vingaram. O primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, a quinta, a sexta... até o décimo-sétimo. O marido, um José compreensível, não tocava a boca nos peitos da videira perene. E um dia, inesperadamente, morreu no parto derradeiro. Ela e a última cria. Anjos rosados, enterrados e ressurgentes nas Campinas da Irauçuba.
VOINHA LUIZA, DE ONDE também tomei o leite (tinha suficiente até para os primeiros netos), plantava algodão, colhia, fiava e tecia o de vestir para os 17 rebentos e o homem fogoso. Na roca de madeira bisavó, a mulher ocupava-se feito abdômen de aranha. Tardes e noites a fazer teias e, outras horas, a transformar barro em cuscuzeira, prato e quartinha.
ENQUANTO FIAVA E ENSINAVA, sem escola, o ler e o escrever à récua, o pai roçava comida e deitava galinhas. Era distante a bodega mais próxima. De vender farinha, de vender querosene, chiclete, refrigerante, aguardente e sal (porque não havia geladeira).
TAMBÉM NEGOCIAVAM chinelos de borracha de maniçoba. E não eram muitos os que andavam calçados. Quem tinha sapatos era rico! Sandálias? Saturnino foi possuir um par já com 12 anos de infância. Depois de ganhar o primeiro dinheiro de comprar, foi à venda. Sonhava mais que tudo com o andar exibido pelo povoado.
CALÇADO, QUASE UM FIDALGO. Como se pisasse em moça para não gastar as virgindades. Manhã daquela, olhou tanto para os pés, no primeiro dia dos chinelos, que entalou a fila da comunhão da missa chata do padre que bodejava em latim. E aja reclamar a procissão e ele abestalhado, com os pés calçados, a empalhar quem desejava o Cristo.
NO FUTEBOL DO CAMPINHO de barro-pedra, jogava com as sandálias enfiadas entre os dedos das mãos...
SATURNINO NÃO AS TIRAVA dos pés nem pra dormir. Encandeado. E por algumas moedinhas alugou pra pirralhada dar umas voltinhas. Ele, no meio de mil curumins, era o único que possuía duas sandálias de caminhar. Alpargatas de borracha e cabresto. Nas festas da padroeira, nos domingos de visitar os tios ou nos velórios de gente conhecida era o menino dos pés de chinelos. Iria longe, muito longe...