Demitri Túlio
03/05/2008 01:14

NINGUÉM VIAJAVA PRA fora sem levar notícias e encomenda para os parentes. Saísse de Rasgo Fundo de Santa Isabel Pura com destino a São Paulo ou, mesmo, para Fortaleza. Era do feitio da mundiça mandar coisas para quem não se via há tempos ou só se ouvia falar por carta, ou conversa chiada de hora marcada na telefônica.
E MANDE FOTOS, VIU? Tá gordo, corado, cheio de saúde? Abra do olho, gripe mal-curada é um trisco pra crupe. Vou mandar um lambedorzinho de malvarisco por alguém que for por aí. E Neinha, vai bem? E dona Avanir, oh saudade! Sim, vai indo pelo Correio os cachinhos ruivos de Otoniel. Ternontonte, na missa do Domingo de Ramos, batizaram o pagãozinho e apararam uns cachins de cabelo pra você guardar de lembrança e fazer pedido ao anjo.
ERA CERTO LEVAR um embrulho medonho com goma pra fazer tapioca, rapadura, manga-rosa verde, fubá de milho, cará no gelo, e as tais sementes de murici. Mas já havia avisado que São Paulo não tinha terra boa pra fazer nascer planta de praia. Era bem a milésima vez que tentavam. Sem vinga. Nozinho sentia saudades do gosto gelado do suco adocicado e grosso.
LEMBRANÇA TINHA CHEIRO e gosto. O sabor do alfenim e até o cheiro de naftalina nalguma roupa remetida fazia recordar a casa de quintal e galinhas. O amanhecer, o moscaral em tempo de chuva, a televisão à bateria... Não saía da cabeça as que apreciavam se acocorar, bebericando café forte e pitando cigarro ruim. E o cheiro da rede, pura a fulana, aperreava a saudade.
MORREU TIA ANINHA e não deu tempo o filho mais velho chegar pra velar a morta. Era meio de mês e, de ônibus, eram três dias de viagem. Choramingou muito e sem fôlego, tiveram de levá-lo para o balão de oxigênio. Tão longe! Havia falado com ela, na última sexta-feira por telefone. Domingo, boazinha, almoçou buchada, deitou-se e não tornou. Morreu dormindo, cabocla de 60 anos. Nova, novinha! Disposta, roceira e leitosa.
OS DAQUI FICARAM num pé e noutro. Do jeito que o irmão ficou em São Paulo, daqui a pouco morreria também. Oh, tragédia! Quando tudo vai bem, vem o cão e acanalha. Mas iria pelo Correio as fotos da morta. Em pé ao lado dos filhos, marido e netos e, também, no caixão. Era costume o retratista da freguesia fazer o registro. Depois, colocavam na moldura dourada e pregavam na sala de todo mundo chegar.
FIZERAM ASSIM, mas o desterrado não se conformou. Havia uma semana que só botava preto e ruminava remorso por não ter ido enterrar a mãe. Mirava as fotos da morta e desaguava. O próximo que arribou pra São Paulo levou encomenda grande. Fedia e incomodou o mensageiro. Chegou, pedido por ele. Anáguas da velha que ele passou a usar para dormir.