Demitri Túlio
26/04/2008 01:45

FOI DESSE JEITO. Quando o gato morreu atropelado, derramaram uma choradeira incontrolável. Era o terceiro que a Desembargador Otacílio Peixoto dava fim. Em meio a tanta coisa que o bicho incorporou, talvez a única que não assimilou foi a de prestar atenção na hora de atravessar uma pista ou só passar na faixa.
ERA MENTIRA, REPETIA aos prantos. Gato não tinha sete vidas. Morria igual a qualquer pessoa ou muriçoca que tinha uma vidinha só. E mais decepcionante ainda foi descobrir o tal fim das coisas.
SE BEM QUE O GATO não era coisa. Mas era como se fosse em algumas ocasiões. Vivia preso, no cadeado e porta sempre fechada. O que havia morrido, por exemplo, nunca fez cocô no quintal. Jamais experimentou cavar buraquinho que fosse pra enterrar suas nojentezas.
SEU TOILLET ERAM jornais caducos, de um ou dois dias. E não sei porque cargas d´água, conhecia os assuntos e só defecava quando lhe estendiam as páginas de política. Os gatos de lá sempre foram meio estranhos. Em vez de comer bichinhos, mastigavam rações insossas. Light.
TAMBÉM NÃO SABIA que gatos poderiam ficar obesos, gripassem e precisassem ser internados em hospitais próprios para animais estressados. Minha vó contava que seus bichanos - que não foram poucos - caçavam catitas e perseguiam calangos e insetos. Mas as cidades mudaram e os ratos se transformaram em camundongos taludos e arrochados.
NEM BARATA, O FINADO gatinho enfrentava. Ao grito de BARATA!, acreditem, era o primeiro a se trepar no sofá. E era um suplício aparecer uma barata na casa onde só havia mulheres e meninos miúdos. Todo mundo refugiado em algum móvel alto e rezando para que a bicha não resolvesse decolar.
ENQUANTO A BARATA, ela própria, não decidisse picar a mula, nada se resolveria na casa. E poderia empalhar dias e meses, só por causa de uma baratinha implicante e um gato que nutria pavor contra insetos porquinhos.
MAS NINGUÉM PODERIA xingar o gato macho. Coitado. Havia nascido felino, mas agia feito gente. Não estou mentindo. De tanto ver as mulheres (eram maioria) fazer xixi acocoradas no sanitário, repetia o mesmo ritual.
SÓ NÃO PASSAVA a pontinha do papel higiênico nas partes porque o braço era curto e a patinha não alcançava o rolo. Mas balançava as ancas para não deixar escorrer e melar as pernas com o último pinguinho do mijo.
UM GATO FRESCO! TALVEZ não. De tanto tratá-lo como gente urbana, cheias de nóias, trique-triques e coisas flaites, acabou daquele jeito. Não é falando, mas dormia na cama com os humanos e sabia quando as donas estavam ovulando. Um inferno. Porque era proibido de sair na calçada, rejeitava o cio das gatas.
MAS NÃO ERA ASSIM apenas com o finado gato. O papagaio parecia um avô antigo, resmungão e esquecido. O cachorro adorava estar no jardim cheirando flores. Não comia carne, peixe ou qualquer bicho invertebrado. Também não ingeria insetos e só comia vegetais orgânicos. E havia um passarinho que não deixava a gaiola, sempre aberta. A exemplo da mãe dos meninos, tinha contraído síndrome do pânico. Fora gaiola, repetiam pra ele, a cidade era violenta e os gaviões, sanguinolentos...