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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O manco

Demitri Túlio


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12/04/2008 00:25


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CANSEI DE VÊ-LA BALANÇAR a cria e alimentá-la, antes do sono da boquinha da noite, com trinchas de Homero, Graciliano, Moreira Campos, Guimarães, Shakespeare e Suassuna. Eu ficava por ali, a mastigar pedaços de conversas enfeitiçantes que me faziam brigar com a noite. Aproveitava a porta aberta, antes de se fechar por causa das muriçocas, e emburacava.

QUANTO MAIS CONTAVA, mais o rebento esgalamia-se. Se as histórias eram para fazê-lo pegar e se enterrar no sono, mais a criatura grelava os olhos e reinava os sentidos. E não deixasse de emendar uma história na outra, pois o berreiro trincaria o ouvido alheio e era capaz de estrondar o açude do povoado.

EU FICAVA ACORDADO o quanto agüentava e quando me rendia a dormência, após o primeiro piado de Passarim, o que ela fosse fiando para o rebento se amedonhava em forma de sonho no meu sono inquieto e bodejante.

VICIOU O MIÚDO, DEITADO numa rede (pau de vassoura atravessado no pé do punho), em histórias inventadas de um jeito, que o viu crescer e não querer mais outra coisa. Queria mais e mais conversas. Sim, esqueci de um detalhe. O rebento só virou gente lá pelos 363 dias de vida quando parou de berrar.

ANTES ERA UM BODE. Um burrego mamão tirado dos peitos e levado pra casa onde se andava em cima de dois pés. Havia sido furtado por Sinharina porque tinha feito de tudo por um bucho e um parto. Cesário, que fosse! Ansiava por descansar como qualquer fêmea. Mas tinha ovários desertos e um marido já em fim de rama.

UM DIA, DESCEU ao chiqueiro e raptou o filho de uma cabra. Agora era dela e viveu todo o ritual de uma lactente. Inchou os peitos, enlargueceu as ancas e tirou resguardo. Tanto contou Homero e Graciliano que o bodinho se fez gente. Por ouvir Guimarães em desmedida, perdeu os cascos, os chifres não saíram e uma pelagem escura fidalga o fez um preto imperial.

PARECIA TER SIDO trazido d´algum reino da África perseguida. Teria chegado pra vingar quem arrebentou as tribos e os obrigou plantar café, cortar cana e ser açoitado quando empancava de remoenda e saudade. De tanto ter sido empregnado por histórias, entaludou diferente e enxergava o mundo por outros olhares.

DE TANTO OUVIR histórias (por acaso) fui conhecer outro destino, já velho. Outro mundo. Acostumei-me a ser mandado de um pasto para o outro. De achar que bode nasce e morre bode. E quando chegavam as secas tínhamos de ir escapando. A mercê do céu e da esmola (dependente) de mandatários. Ninguém nunca desconfiou, mas a razão do meu caxingar é um casco. Coxear de um pé que não deu tempo se destransformar. A mulher das histórias findou antes e restou pata de bode.


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