Demitri Túlio
29/03/2008 00:24

MURIBECA CAIU TRISTE. Era figurinha carimbada lá pelas bandas da Vila União, Rodoviária, Mata Galinha e Cocorote. Única passageira que entrava pela porta da frente dos ônibus. Sem pagar ficha verde e a disputar, com os cara-feias da Polícia, os degraus da saída.
PRA BEM DIZER, NÃO FAZIA empenho da escadinha de despejo. Muribeca aboletava-se, soberana, no mondrongo quente que escondia o motor zoadento do ônibus que se tremia. Sentada, por ali, dia e noite, ao lado do motoristão, ia do Centro aos fins de linha. E tinha intimidades além das contas com os chaufeurs.
EXCLUSIVA DOS MOTORISTAS. Não se dava às liberdades com trocadores ou fiscais. Seu negócio era com quem conduzia o canelau que se espremia nos ônibus da empresa que lhe dera o apelido. Ninguém a conhecia por Maria das Dores e Depois das Graças, seu nome de batismo. Foi registrada assim no cartório João de Deus e na paróquia de São Francisco. Às portas da morte, com uma disenteria infinda, foi salva por promessa de desespero.
NOVINHA, JEITOSINHA e cheiro doce, foi perdendo no aperreio dos anos a boniteza. O viço, não. O fogo era tanto que carregaram, ainda brochota, as garantias de moça. Se deitava com todos. Mas por ter os ovários emborcados, não botava cria no mundo. Menos mal. Caso não, ia ter de fazer lotação.
MURIBECA FICOU TRISTE porque um dia, como de costume, amanheceu na parada da Sousa Cruz e nenhum dos seus deu o ar da graça. Deu 8h15min, deu 9h21min e nenhum dos letrecas da empresa se arrastou por ali. Estavam indo e vindo, horário britânico, uns verde e amarelos. Pouco letrada, fez esforço e conseguiu soletrar São Jo-sé de Ri-ba-mar! Aí, vai!
DEU SINAL, QUIS ENTRAR pela porta da frente e foi barrada. Arrodeou e pagou inteira. Ônibus asseado, piso de metal varrido e ar condicionado. Talvez, pra não escorregar. Não conhecia o motorista, ciscou, mas não teve cartaz. Insistiu, mas o condutor - camisa abotoada, barba feita, cabelo bem aparado, disse que não podia palestrar no volante. Na plaquinha estava escrito.
ERA PROIBIDO TAMBÉM fumar no interior do veículo, subir no ônibus nu da cintura pra cima, de biquíni ou tanga. Sim, rádio só o do ônibus e sempre ligado na Universitária ou Atlântico Sul. Nada de FM 93 ou a Dragão que enchia o saco no Bis musical.
MURIBECA ESTAVA ESTRANHADA, uma mosca num copo de leite. Quis descer fora da parada, não pararam. Correu pra puxar a cordinha da sineta (que arrebentava os ouvidos de passageiros e motoristas) e não havia. Agora, era um botão que acedia uma luz e avisava. Desceu lá na praça do Vaqueiro e chorou. Esperou, por dias, seus motoristões e nada.
NÃO CONTOU PIPOCA. Soube que um deputado pistolão, ligado à prefeitura, tinha arranjado colocação pros demitidos da falida Muribeca nas carcaças da Companhia Municipal de Transporte. Os que gritavam com passageiros, arrotavam e bufavam foram, todos, para o Paragaba-via Maraponga. Fim da linha no Alto da Paz. Muribeca montou um zungu por lá, e vendeu - até morrer - cachaça, prato feito e lascivas.