Demitri Túlio
15/03/2008 00:52
FOI UMA DAS PRIMEIRAS a botar silicone nos seios. A Universidade Federal nunca mais foi a mesma. Professores, sapas, alunos, doutores e viados não falavam em outra coisa. Muita inveja, muito desejo e futricas. Diria assim, no fim dos anos oitenta não era comum se preocupar com essas frivolidades ainda pequeno-burguesas.
AINDA MAIS PORQUE Jamaci, professora da Sociologia, ex-militante do PCBão de Crateús havia sido uma ferrenha combatente do capitalismo canino e de seus males cancerígenos e perebentos. Era dessas de usar sandálias de couro de bode do sertão dos Inhamuns. Porque havia sido produzida na terrinha e não encheria os bolsos de nenhum tubarão da indústria calçadista internacional, vampira da mais valia alheia. Sim, e o caprino tinha de ser genuinamente nordestino.
VESTIA-SE DE ROUPAS feitas de saco de estopa, não usava sutiãs, não raspava as axilas, não se depilava e cultivava a mania de se energizar com os elementais do cosmo. Adorava duendes! Comia plantinhas, dizia que carne vermelha apodrecia o estômago e experimentava (todo fim de tarde) uma barca entre amigos e iniciantes. Um dia, decidiu que não cortaria mais o rabo de ninguém e entrou numa lombra de que solitariamente algumas coisas fluíam melhor. Inclusive a sexualidade. O coletivo só no aparelho, guerrilha ou no Circular I e II.
E FOI NUM DESSES aparelhos, instalado num quixó - localizado a poucas quadras do prédio da Central de Polícia, que caíram todos. Peia, cadeira do dragão, choque nos seios, tortura e infinda tortura... Um dia, deu graças a Deus (odiava Jesus, mas se viu rezando!) quando juntaram uns subversivos e deportaram pra Itália.
OS ANOS BATERAM PERNAS. Arrais, o irmão do Henfil, ela e outros muitos tornaram para o Brasil. Jamaci vinha de peitos novos. Graúdos, untados no óleo reluzente e estourando no decote do corpete importado. Vinha viúva de uma baronesa que havia caído de encantos e adorava vê-la fazer xixi e subir a calcinha entortando o corpo. Do tornozelo ao cóccix.
OS SEIOS NOVOS DE Jamaci viraram simpósios na sociologia, comunicação e psicologia. Fofocas nos departamentos e libidinagens nos centros acadêmicos da Humanas. Fetichismo, compartimentação e mercantilização do corpo da mulher. Indústria cultural e produção em escala do erotismo. Sublimação... Desejo, necessidade, vontade... A bunda, os peitos, a vulva, os pentelhos postiços... O feminino enlatado e vendido nas bancas de revista...
RESUMO DA BAITOLAGEM, os grupelhos da intelectuália do pós-ditadura não tinham o que fazer e suas vidas pessoais eram uma bosta. Mal casados, traídas, dedos-duros, enrustidos, patrulhadores, frígidas, psicopatas, mal resolvidas, gente sem orgasmo e machistas do Benfica. No fundo no fundo invejavam, de alguma forma, os seios de Jamaci. Jamaci, que agora odiava as ligas camponesas e não suportava mais ouvir Caetano, inventou um mestradinho em Lisboa, depois um doutorado em Roma e um pós-doc nos EUA. Deu umas aulinhas, aposentou-se na seqüência e pra um aluno (único até hoje) mostrou o que todo mundo cobiçou.