Demitri Túlio
08/03/2008 00:18

QUANDO O PAI FOI embora, foi bom. Acabaram as brigas com a mãe e os dias de esperar por quem não queria voltar pra casa. E talvez nem fosse um monstro, nem fosse tão raivoso e desatencioso com os seus. Simplesmente, chegou o tempo de querer descasar. Desamou da esposa e palpitou por outra. De verdade, de verdade, chegou ao ouvido da abandonada que havia um filho torto. Dois anos de idade, em outro bairro. Despetalou-se.
MAS NA RUA NÃO havia só o caso do pai e da mãe que ninguém, nunca, imaginaria que um dia se separariam. Talvez em toda casa, houvesse alguma história de desarranjo armorioso. Casamento no restin de nada. Dona Umbelina, dos seios vistosos e bunda sobrando, dizia que não agüentaria tantin assim. Escarraria de casa o troço e iria viver a vida sua e dos filhos.
MAS NÃO TRABALHAVA fora há muito e havia deixado o ginasial por ciúmes do machão. Dependia dele pra comprar até sonhos. E veja o que são as coisas e as voltas que o nó dá na corda. O homem dela enrabichou-se por uma bruaca. Enfeitiçou-se. Cegueira e desnorteio. De uma hora pra outra, perdeu o emprego e a mensalidade da escola dos meninos acumulou.
UMBELINA, AGORA DEFINHANDO a boazudice, desmilingüia-se de imaginar o homem dela com a muquirana. O beijo que não era mais seu. O acordar de manhã e a falta até da zoada que o ex-amor fazia por perder, todas as manhãs, as chaves do fusca. Os filhos e as perguntas sobre coisas do pai que davam em choramingas infindas. As fofoqueiras emboanceiras que azucrinavam com entrançados mesquinhos. Isso, aquilo e aquilo outro. Um redemoinho.
NO PERRENGUE DA TRAIÇÃO permaneceram por meses. Um estica e puxa, um disse-me-disse, berros, silêncios e mágoas doídas. Uma vontade de se matar ou desaparecer de tudo. Mas já havia entrado na fase do tanto faz. Ter um homem só por ter, tê-lo dentro de casa feito um estrangeiro? Talvez só por causa dos rebentos. Desculpa pra besta ouvir e continuar sendo égua. E ele um covarde! Desencantou-se? Então fosse, mala e cuia, viver com Rapunzel.
MAS NÃO FOI ASSIM. O homem quebrado das economias, desempregado pra sempre, permaneceu em casa. Embora, toda sexta arrumasse a roupa num saco plástico do Jumbo e sumisse. Passava o fim de semana com a outra e retornava na segunda-feira, bem cedinho. Voltava com mercantil pra cinco ou seis dias. Era a fulana, cabeleireira do bairro. Compadecida da pindaíba deles, mandava o de comer e o dinheiro do papel da água e luz.
FOI INDO A VIDA desse jeito, engatada uma na outra. Modo estranho de ir levando e remendando o acontecer. A esposa só ficava calada.