Demitri Túlio
23/02/2008 01:20

COMEU UMA MACUMBA E prosperou na vida. Estava cansada de um dia comer ovo, noutro sardinha ou carne de lata. Pindaíba de Jó. Trabalhar ajumentadamente pra garantir a mistura. Chegar no fim do mês e deixar tudo na bodega. Cadernetinha. Dava, somente, pra sair do prego. Sobrava quase nada. Troquinho. Tostões que mal compravam o dindin de depois do almoço. Repugnância da conserva.
FOI ASSIM. PASSOU QUASE dois meses sonhando em comer galeto e farofa de sobrecu. Mas não tinha cara pra ir ao açougue, nem à esquina do Frango Dourado. A visita repentina de uns parentes do Sudeste fizeram com que se endividasse além da conta na mercearia. Daí sacrificou outros credores. E o pior, mesmo assim, não escapou da língua das visitas.
NO QUINTAL, SÓ HAVIA pintos comprados na feira. Roubar os frangos do vizinho, que dormiam na goiabeira, era dar na vista. Não era tempo de bingo e festa da padroeira. E mesmo se fosse, teria dinheiro pra comprar uma cartela ou botar ponto em rifa? Difícil.
UM TORMENTO. GALETO! Brasa, fumaça nas ventas, farofa de sobrecu e uma Brahma! Sonhava acordada. Dormia e no meio da noite se sobressaltava. Água na boca, mastigação da língua e tomação de gosto. Um franguinho assado! Na madrugada do desespero ouviu arrumação, vinha da rua um tititi. Bodejado de comadres e gemidos.
CORREU AO BASCULANTE E sem aceder a lamparina (a Light tinha cortado a luz), espiou a marmota. Um despacho de catimbozeira do mal. Reconheceu, inclusive, uma das emboançeiras. Dona fulana que tinha a sobrancelha bem aparada, unhas encarnadas e era gorda bem feita. Namorava com homens casados e vivia destroçando a vida alheia.
NO MEIO DO MACUMBAL, havia uma galinha preta. Finada. Não contou pipoca. Mal dobraram a esquina, foi lá e furtou a falecida. Na mesma madrugada, catou taliscas e acedeu o fogareiro (o gás tinha acabado). Ferveu água, depenou a bicha, sapecou os canhões, extirpou as tripas, separou o cacho de ovinhos e meteu-lhe um espeto de churrasco. Do sobrecu ao tronco.
NÃO SAIU DO PÉ do mormaço e, quando cheirou a galeto, empurrou o pau a comer. Comeu como se fosse morrer dali a pouco. Roeu até o pés, dedim por dedim. Refestelou-se, empanturrou-se e não conseguiu ir ao emprego. Às patas o patrão. Estava com uma dor no pé no estômago e já havia tomado chá do olho da goiabeira, Elixir Paregórico e Gotas Arthur de Carvalho. Não conseguia parar de obrar e se retorcer.
PENSOU NOS EBÓS, seria castigação. O catimbó queria o troco? Sabia-se lá! Aconteceu o avesso. De hora pra outra, prosperou vendendo Avon. Deixou de comer ovo, sardinha e carne de lata. Agora era chã de dentro, coca-cola de litro, picolé da Maguary, cavala na Quaresma e macarronada com carne moída aos domingos. Continuou furtando galinha de despacho. E ainda choveu homem na soleira da porta.