Demitri Túlio
16/02/2008 00:08

POR CAUSA DO OLHAR do menino, enxergou os passarinhos. Era desses de cultivar coisas que tinha perdido e encontrava. De criar passarinhos livres, não perseguir calangos e admirar histórias que os inteligentes achavam desprezíveis. Foi ele que descobriu como era bonito o nome do rio que passeava sob a ponte do rio Jacundá. Jacundá era um peixe (meio azulado) e pouca gente sabia disso.
MUITA GENTE ACHA que sabe de muitas coisas. Que já leu quase tudo e um dia, de tão sabido, não vai mais precisar conversar com ninguém. Nem com as pedras. Noutro dia o menino, que se importava em saber sobre o nada, aconselhou um sapo (meio teimoso) a engolir insetos até o tanto que a fome media.
MAS O SAPO (MEIO arrogante) queria todo o querosene dos vagalumes, a voz de cantar invernos de todas as cigarras e todo o verde de que se pintavam as asas de todos os louvas-deus. E mais ainda. Não se aquietou enquanto não engoliu todas as joaninhas torcedoras do Flamengo. Pois muito bem, engordou tanto que virou uma bola que alguém chutou e embarcou no vizinho ranzinza que odiava rachas de fim de tarde.
O MENINO, DE TANTA meninice na rua, virou doutor em mar, picolé de creme holandês e ipês amarelos. Descobriu que quando se derrubava uma casa de quintal (meio antiga) pra construir um prédio do tempo moderno, 1.201 passarinhos e (dez galos) deixavam de ali cantar e fazer amanhecer. Fora o passado, calado e pra sempre enterrado.
MUITA GENTE ACHA que construir prédio, cortar goiabeiras e esmagar os grilos é coisa de gente grande, sabida e formada. Que sabe fazer o moderno e que o tempo não é mais de algodão doce, jogo de amarelinha e brincadeiras de cai-no-poço... Pode até ser, mas o menino preferia o quintal e ter avó pra contar.