Demitri Túlio
09/02/2008 00:41

PRIMEIRO DIA DE AULA em escola diferente era um terror. Sem conhecer ninguém, sem saber onde sentar e mudo. A 8ª série era um mergulho no mistério. Última chance pra deixar de ser abestado. Ano seguinte, caso escapasse da degola das bimestrais, o 1º ano básico seria (infelizmente) o caminho pra entrar no chato mundo dos mais velhos.
E ESCOLAS PARECEM TODAS iguais. Havia terror na apresentação dos conteúdos e ameaças de punição para quem não estudasse. A matemática, misturada à trigonometria, iria piorar a cada aula. A ordem era não perder tempo pra não se suicidar na hora dos testes relâmpagos e argüições repentinas.
A HISTÓRIA ERA MANTER todo mundo tenso à espera do imponderável. E vejam que tortura, notas boas em química garantiriam no ano seguinte aulas no laboratório de fazer sabão e outras bobagens. Quem apenas estivesse na média, ou abaixo dela, seria enviado ao limbo dos condenados a fazer estatística no 2º grau. Um horror.
A ESCOLA, ENGRAÇADO, ERA o melhor e o pior lugar do mundo. Os gordos só andavam com os feios e mal engembrados. As bonitinhas, de saias, dobravam as meinhas e paqueravam com os mais velhos e fortes do 2º e 3º ano. Os melhores de cada classe eram os que tiravam dez em matemática e física. Os atletas, na maioria burros, eram os heróis dos interclasses e copas entre colégios. Populares...
OS CU-DE-FERRO E OS míopes sentavam na primeira fila e nunca iam à praia. Brancura e milhões de cravos no nariz. Os que não tinham cabelos lisos eram chamados de neguinhos ou aritanas. E o menino que andava com a patotinha de meninas, e trocava figurinhas para encher o álbum do Amar É, era pacosa.
HAVIA TAMBÉM O BRIGÃO, o dono do bebedouro e o que tomava merenda dos lesados. E aqueles que não podiam ver uma borracha ou lápis dando sopa na carteira. Larápios. Tinha ainda o bonzinho, o que ia ser padre, as galinhas, o que só passava pescando, os riquinhos, a garota parruda, as boazudas, os artistas, o filho da mulher da cantina...
A 8ª SÉRIE CHEGAVA E, com ela, trilhões de dúvidas e mudanças. Os seios que vinham saindo atrasados, o bigode ralo no buço, a voz de besouro, os dois contra um das afogueadas, os cinco contra um dos meninos...
Aí, esse é o velho Demitri da Parquelândia querida, da praça da Aerolândia e dos oitis da reitoria. Agora eu senti o cheirinho maravilhoso da nossa Fortaleza da década de 60, 70 e 80. Continua assim, mestre Demitri, que a história tá "de rochedo", "pedra 90", só de vera.... Ei, continuo esperando o livro do cumpadre. Cearense dos bons promete e cumpre! Abraços do leitor fiel, Marcelo Serpa (Santa Catarina)
marcelo garcia serpa
Realmente o Demitri é único na crônica do (digamos) nosso tempo, nossa época. Como ninguém, ele vai puxando do baú estas reminiscências e a gente dá uma vontade danada de tomar uma Colonial e depois sair pelas tertúlias da Parquelândia, Bela Vista, Amadeu Furtado... Vai fundo, mestre Demitri.
José Eliseu de Farias