Demitri Túlio
02/02/2008 00:07
OS VESTIDOS JÁ NÃO cabiam em dona Amabel. Sobravam no corpo curvilíneo da agora moça. E foi ela que tratou de restaurar os desalinhos. Como as mucamas foram proibidas de entrar na torre, cansei de vê-la recosturar o guarda-roupas pomposo. Auxiliava-a no que podia. Enfiar uma linha na agulha, encher uma bobina da Singer e acudi-la quando o alfinete a espetava.
HAVIA ESCRITO NAQUELE começo de mês que o Senhor esposo dela pagaria com alma o que vinha fazendo com o destino dos alheios. Não morreria tão cedo e, mesmo que pedisse, não seria agraciado. Olhos de insônia, corpo mastigado pelo tempo - iria atravessar floradas e floradas do caju.
POR ÚLTIMO, POR NÃO querer africanos nas missas em latim dos bem nascidos, mandou construir a igreja dos Caboclos Pretos no alargado do Santo Rosário. Uma taipa mal engembrada no meio do morro e muricizal. Perto das águas salgadas do Forte. Por lá, a cambada de negrotes descalços poderia passar da porta da entrada e chegar perto do altar dos jesuítas.
FOI COM OS JESUÍTAS que se acolheou para reduzir a quase nada o que havia de bárbaros nas terras dos Generosos e qualquer gleba avizinhada. Pouca coisa não era dele. Quase nada. E não havia família do naipe do Senhor de dona Amabel. Uma ou outra, mas que por alguma motivação tinha palavra empenhada com o homem.
NA ALDEIA DE CAUCAIA foi erguida a igreja de Nossa Senhora dos Desejos. Seis meses depois de vencerem a batalha contra os Tapeba. Quem sobrou foi batizado na lagoa do Emboá e recebeu nome de branco. Subnome. Quem escapou se enterrou vivo ou virou mata ou virou bicho. Rareou o magote de índios que havia dono de um pedaço do mar e do caranguejal.
DIZIMOU TAMBÉM OS SELVAGENS de Porangaba e Paupina. Na primeira sentou a imagem de Nossa Senhora da Conceição e em Porangaba, a de Bom Jesus dos Aflitos. Mandou espalhar que os tapuias eram raça velha, retardada, sem elástico para atravessar tempos modernos. Cuspiam no chão, coçavam-se e balançavam a preguiça em redes.
VIVIAM ACOCORADOS E ERAM dados ao fumo e à bebida fermentada. Não tinham pêlos no corpo por maldição e não possuiam amor algum à família, nem zelo pela honra das mulheres e das filhas...
Cara leitora (o), a série "A Albarrã dos Generosos" - iniciada em janeiro - será escrita a partir das próximas semanas em um endereço eletrônico. O POVO informará previamente como acessar. A coluna Das Antigas continua a ser publicada normalmente aos sábados.