Demitri Túlio
19/01/2008 00:17

O QUE DONA AMABEL escrevia, depois que foi confinada, virava coisa. Havia reclamado da falta que o marido fazia. Sabia de seu enrabichamento com as mucamas libertas (só havia dessas na fazenda). Adorava as franzinas de seios grandes, canelas finas e ancas largas. Aquelas que não se acreditava, pudesse carregar as tetas. Só ficava com elas, enquanto não amojassem. Depois, desachamegadas, tinham de se casar com os caboclos e iam cuidar do filho não reconhecido do patrão e dos cinco ou seis que ainda faziam.
DONA SENHORA NUNCA havia ficado amojado. De brochota até os atuais sessenta anos, não havia embaraçado. Odiava as parteiras cachimbeiras que habitavam a propriedade dos Generosos. E não era coisa de Deus a estiagem do ventre dela. O marido, senhor patrão de terras que pareciam eternas, trouxe tudo o que existia de moléstia e nojeira das fornicações com as caboclas e até caboclos fonas.
PEGOU TANTA COISA ruim que fez deserto na maternidade da esposa. Era uma Sarah de Abraão, sem Isaac. Mas talvez por aí, a explicação para ir seguindo moça. Talvez compensação. Enquanto o marido caía aos pedaços pelos anos cada vez mais ligeiros, ela remoçava a cada passagem de um 31 de dezembro. Estava mais moça, mais nova. Seios de menina de 18 anos. Nenhuma mancha, nenhuma dobradura na barriga. Nenhum cabelo branco. Dentes intactos. Não tinha calibre pra ser redonda.
TALVEZ A ESQUISITICE DE estar remoçando, a cada ano, amedrontasse o patrão. De tanto furtar a inocência das caboclas ainda com dentes de leite, acabou trazendo pra dona Amabel o viço de todas com quem se deitava. Quanto mais fornicava com as meninas, mais dona Senhora repercutia no corpo. Daqui a pouco, duvidasse, voltaria a ser desejo de seu pai e mãe. O marido, havia muito tempo não se aninhava com a esposa. As caboclas. Cada vez mais velho, cada vez mais nojento e repugnante. Um porco furçador.
FOI POR CAUSA DELE que um surto de comichões tomou as cabeças e púbis de quem morava e trabalhava na propriedade dos Generosos. Principalmente das caboclas e capatazes efeminados. Estava escrito nas anotações de dona Amabel: "cáncaro, por se comparar o piolho a um mal pior". Foi uma peste. Nem óleo de rinço, nem melaço de urucum. Nem banho quente com chá de urtiga.
PRA DEBELAR a praga de carangos, foi preciso pelar as cabeças e as virilhas de meio mundo. Só quem escapou dos parasitas foram dona Senhora e eu. Da sacada da albarrã, era esquisito ver aquele bando de gente de cabeça raspada.
PRA NÃO IDENTIFICAR QUEM desfrutava com o marido de dona Amabel, o patrão mandou que todos passassem pela navalha. Sim, ficaram de fora as crianças e meninas de 15 anos pra baixo. Até o padre foi raspado. Não que se deitasse com o herdeiro das terras dos Generosos. Não. Mas também era afeito às caboclinhas e senhoras mal casadas. Himeneus desastrosos, delatados (ajoelhadas) no confessionário. Dona Senhora não estava louca. Tinha comadres e a confiança de alguns.
MUITOS NÃO RECUPERARAM OS pêlos da cabeça e púbis. E era um problema. Sol forte e arrasador de juízo. Mesmo com tanta árvore e um vento que soprava do mar. Mas havia tempos de estiagem plena. Imperdoável. No patrão não nasceu mais nada. Aridez. Nem por isso sentiu o cheiro da estranheza. Continuava a bulinar negrinhas e também curumins. Dona Amabel remoçava. Os bárbaros, tribos dali, invadiram as terras dos Generosos.
CONTINUA NO PRÓXIMO SÁBADO
Olha, Demitri, eu nunca enviei uma só linha para quem quer que fosse o articulista, nem para elogiar tampouco para torcer o nariz. Sou cearense e moro em Santa Catarina há dez anos. No começo, quando tu falavas da Fortaleza antiga, sem palavreado rebuscado, sem figuras de estilo e outras milongas mais, eu te colocava entre meus escribas favoritos. Rezava para encontrar um texto novo teu, falando da minha querida, adorada e nunca esquecida Fortaleza. Tua produção era a prova de que minha infância e adolescência não havia sido apenas uma fantasia. A fortaleza das Antigas tinha existido, sim, e eu tinha participado dos seus dias e noites maravilhosos: o escorrega-lá-vai-um, o Madrugada, o Romcy e o J.Pires (o primeiro gay oficial da cidade), o Banbú, a Ieda e o gogó da ema, as vesperais do Náutico, as festas da Treze de Maio.... Hoje dá até medo abrir um artigo teu, pois mais parece a redação da coluna do Lúcio, que a gente não entende um por cento do que está escrito, de tão "criativo" e rebuscado o seu estilo de escrever. Mude, Demitri velho de guerra, mas mude sendo fiel a você e aos seus leitores. Um forte do ainda seu leitor, Marcelo Serpa escala1109@gmail.com (48)9951.6456
marcelo garcia serpa