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Das Antigas

DAS ANTIGAS

A Albarrã dos Generosos II (A nueza)

Demitri Túlio


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12/01/2008 00:27

EMUDOU-ME E OS PÉS FINCARAM raízes. Mesmo que quisesse, não me movia. Era nudicaule, não havia um pêlo em seu corpo. Com exceção da cabeleira bem cortada, curta e emborcada perto das orelhas e vau do pescoço. Tinha folhas apenas onde deveria ter, preenchida num desenho natural. Corpo alvo, branco sem aparência de anêmica, e corado nas maçãs e lábios petulantes. Delgadeza.

NÃO HAVIA VELHISSE em dona Senhora, apesar dos 60 anos. Nada. Nenhum cabelo branco, nenhum engelhamento nas mãos e pescoço. Corrugadeira alguma. Nem o nariz havia crescido com pêlos além das narinas, nem nas orelhas havia nascido acnes. E não era porque a luz da hora era apenas a que vazava pelo postigo. Não. O corpo não tinha desmoçado. Não havia explicação...

DONA AMABEL TINHA LAPSOS de tempo e desligava por instantes. Rápido. Tinha de vesti-la antes de chegar alguma cabocla e maldar coisas. Também morria de medo do Senhor. Mas não podia sair e deixá-la assim. Arrepiava-se de frio e tremedeira com qualquer sopro. Voltava a si e, às vezes, me flagrava cobrindo o nudus. Estranhava, mas me olhava de frente sem ralhar e me pedia para fazer a compressa na mão direita.

HAVIA CÃIMBRAS ALFINETES e necessitava escrever. O polegar e o indicador tinham dificuldades para segurar e dirigir a pena sobre o papel. Estava escrevendo uma carta romance e não tinha jeito com a mão esquerda. A mogigrafia a impedia de empunhar além da pena, coisa mais densa ou longa. Uma banana, não conseguia descascá-la.

ENTÃO ERA AUXILIADORA o guento. Lavava e repetia, por vezes, o banho da destra com água dormida de alfavaca, manjericão e colônia. Até que me furtava a própria mão e voltava a escrever inteiriço. Doloria novamente e deixava a mão cair um pouco fora da escrivaninha. Mais alfavaca, manjericão e colônia. Fim do dia, pedia que lhe banhasse os pés. Fazia-o com prazer e hortelã.

DORMIA AO PÉ DE SUA porta. Primeiro por orientação do patrão, depois porque não conseguia mais arredar o pé dali. E penso que ela se sentia mais segura e na companhia de alguém. Mesmo que criasse pessoas que saíam de sua pena e imaginação inquieta. Perguntava pelo marido. Reclamava das poucas visitas e do enfurnamento. Morreu? Não. Pena. Deve estar com as caboclas. As pretas deles. Coitadas. Vão pegar piolhos do Senhor.

PIOLHOS, DONANINHA?! Sim.

CONTINUA NO PRÓXIMO SÁBADO


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