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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O Albarrã dos Generosos

Demitri Túlio


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05/01/2008 00:28


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MAMÃE ERA LAVADEIRA dos Generosos. Moravam em uma propriedade que ia de onde hoje é a Reitoria até a igreja dos três Pastores. Habitavam um castelo de escadas e pé direito alto. E lembro quando dona Amabel surtou de vez. Construíram uma albarrã para confiná-la, vizinho ao baobá (ainda hoje existe). Desse 5 da manhã ou 17h30min, os papa-cus enlouqueciam mais ainda os comichões de donaninha.

NÃO HAVIA MAIS CONDIÇÕES de viver solta como qualquer liberto. Por último, tentou escapulir em uma dos comboios de muares e gado que veio pela estrada de Paço Bonito. Era obrigatória a passagem dos tropeiros por dentro das terras dos Generosos. Arranchavam pra dar de beber os bichos e caboclos. Dona Amabel, depois de furtar o albardão do próprio esposo, selou a égua de estimação e tentou se ir. Foi devolvida pelo ponteiro da tropa.

VEIO TERNA, APESAR de aborrecida. Passou a ser vigiada e, semanas depois, foi enclaustrada na torre bela. Eu não achava que ela havia enlouquecido. A não ser quando berrava, justificando a fuga pelo medo que passou a ter do padre da igreja das Curas. Construção imponente, presente do marido a dona Amabel. Erguida nas ribeiras de um córrego que arrodeava o mundaréu sem fim da família. Só para o casamento.

O PADRE ERA UM ITALIANO. Dona Senhora repetia que o branquela, de nariz pinoquiado, cometia o pecado da embustez. Havia engabelado Iracema. Deixou-a embaraçada e largou a coitada para os rumos de um mar que ficava a dois dias da casa dos Generosos, no Soure. Lia muito e misturava livros, lugares e nomes. O religioso, na versão dela, queria desposá-la. Teria sussurrado após cumprimentá-la no dia do casamento. Já se iam mais de 45 anos.

DONANINHA TINHA, AGORA, sessenta anos. Mas não parecia. Continuou moça. Quando casou-se, aos quinze anos de idade, o véu de noiva arrastou-se por mais de uma légua. Mamãe repetia essa conversa. Repetiu por pelo menos oitenta vezes. A criadagem sofreu para desenganchá-lo dos pés de pau e espinheiras da vereda que levava à igreja das Curas.

ABORRECIDO, DIAS DEPOIS, o esposo de dona Amabel mandou abrir caminho largo e sentou pedra de rio no que mais tarde se transformaria na avenida Estudantal. Porque muitas décadas após o casório, em uma das esquinas que surgiu no tempo, funcionaria a Escola de Todas as Artes e Ofícios e o prédio de Difundir Latin e Francês. Tinha alemão, mas com a guerra foi defenestrado e substituíram pelo britânico. Mais isso foi em outro pra frente.

FIQUEI RESPONSÁVEL por campear e proteger dona Senhora. A não ser o marido e eu, nenhuma pessoa tinha a chave do albarrã. Ninguém entrançava nos aposentos. As aias e caboclas vinham trazer comida e o que ela desejasse. Banhar-se, se assear, ela mesma o fazia. E fiquei abestalhado com a nueza de dona Amabel...

CONTINUA NO PRÓXIMO SÁBADO


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