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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Contorno e retorno

Demitri Túlio


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29/12/2007 00:24


SAIU CORRENDO DO PLANTÃO do IJF. Faltavam poucas horas pra virar o ano e ainda não tinha se depilado. Cabeluda de um mês e quinze dias. Cansaço ao extremo, acidentes um atrás do outro e escala apertada. A cada ano, a coisa piorava para os médicos. Nunca os jornais deram que o número de desgraças no trânsito ou dos rififis decorrentes que as cachaçadas iriam arrefecer. Sangue, traumas e lamentações. Principalmente nas festas de fim de ano e Carnaval.

TINHA UM OUTRO ÍNFIMO. Há um ano e meio deixava fechar o mês (ou até sessenta dias) para estaquear as intimidades. Além da guerra no hospital, estava sem namorado e não havia promessa de dias chuvosos. Então, pressa pra quê? Sofrer de graça pra se mostrar para o espelho? Suportar uma outra mulher quase enfiar as furças e bulinar, só pra ter a frívola sensação de limpinha? Nann!

E CASO, SE DE REPENTE, UM milagre acontecesse de aparecer um homem do nada, correria ao banheiro mais próximo. Com a tesourinha de unha, Prestobarba róseo, algodão e água oxigenada, faria um arranjo pra quebrar o galho e pagaria pra ver. Estava acostumada com emergências e, mais ainda, com a possibilidade de o Mar Vermelho se abrir novamente.

ENTÃO CORREU À ROSA PÚRPURA, um salãozinho discreto que ficava a dois quarteirões do hospital. Limpinho, varrido, aromatizado com incenso de pau santo aceso pra descarrego e felicidade a conquistar e nunca mais largar. Na parede, fotocópias da Origem do Mundo e uma réplica do Abaporu.

O GABINETE TINHA FUNCIONÁRIAS com unhas cortadas no tronco, luva, touca e máscara descartáveis. Era proibido fumar e o único incômodo (pra ela) era presença de um boxer em sua cabine. Tinha a impressão que toda vida que ia se depilar, algum cheiro dela atraía o cachorro. Só podia ser o odor impregnado de hospital. O cachorro não era impertinente, mas não tirava os olhos. Bastavam os de Rosa, sua depiladora há quatro anos.

ROSA JÁ PARTILHAVA DE uma intimidade, talvez maior que a ginecologista dela. Tão assim que fazia comentários sobre isso ou aquilo sem se ruborizar. A médica, mesmo depois de uma relação de 4 anos de arrancar pêlos, ainda encabulava. Na última observação, a depiladora achou que suas nádegas haviam crescido. Foram as férias na Europa ou é o Pilates? Ficou calada e deu um cotoco para o boxer petrificado.

JÁ NÃO CHORAVA MAIS DE DOR a cada solapada. Um ou outra lágrima surgia, apertada, no canto do olho quando Rosa errava no time do sopapo. Findo o contorno, bigode ralo e triângulo de bila, Rosa propôs o inédito retorno. Nunquinha! Suposta possibilidade de homem na virada do 31 não pagava mais martírio. Rosa insistiu. Além das sementes de uva, caroços de romã, porco furçador, a da hora era ficar como veio ao mundo no derriére. Algo de transcendente ou viadagem parecida.

DEPOIS DE MUITO INSISTIR, de jogar uns búzios e ler a aura da médica, a cliente aceitou. De quatro, fazia figa e mentalizava longe. Não agüentava a dor e o novo constragimento. O desgraçado do boxer enraizara. Feito, terminou o ano na praia e, depois, com uma irritação por causa do sal. Micose. Nada de homem. Entrou de costas no mar churmo de canelau e arrependeu-se.


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