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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Inha, Ísis e Rompe Vento

Demitri Túlio


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22/12/2007 00:17

VIU-SE APERREADO COM o desejo da filha única. Seis anos de idade. Veio em forma de reclamação. Era dessas miúdas de embaraçar até cortesã. Já havia perguntado aos pais o porquê de a maioria das babás serem pretas, virem do Interior e, muitas vezes, terem a mesma idade dela. Quis saber também o que significava ser quase da família. As empregadas eram tratadas assim. Se eram quase parentes, por que não comiam na mesa de jantar-todos e o quarto delas era na cozinha?

FICAVA POR ALI. PENSAVA antes de responder e, às vezes, respondia. Noutras, tentava enrolar e desconversava. Mas na última, a pequena o encurralou por semanas. Emparedou o pai e não sossegou enquanto não teve a volta. Marcou dia para resposta definitiva e cobrou. Enquanto pôde, o homenzarrão tentou escapar da menina.

A INHA, EM TOM QUASE de paciente freudiano, exigia um irmãozinho. Sentia-se sozinha. Mesmo com o quarto cheio de brinquedos, com a paciência de dona Dorvina (a mucamba) e a televisão. Queria um irmão. Todo mundo na escola, e vizinhança, tinha dois ou três. Ela estava pedindo apenas um.

CASO A RESPOSTA DO PAI fosse negativa, teria que lhe dar um presente. Uma cadelinha. Um irmão ou uma cadela! Escolhesse. Não arredaria pé. E ameaçou deixar de escovar os dentes, não tomar banho para ir à escola, não pedir mais a bênção, ignorá-lo solenemente e viver com o dedo no nariz e fazer bolinhas. Quis levantar o chinelo e, rápido, desistiu. Não podia encarar a história somente como chantagem.

O CHATO DO MARIDO NÃO queria ter mais trabalho com miado de menino novo, fraldas de cocô, febrinha e Novalgina. E muito menos ter a obrigação de cuidar de outro animal. Vaciná-lo? Dar-lhe carinho e gastar dinheiro pra matar carrapatos? No quintal já havia um. Rompe Vento, um dálmata docilíssimo, que por causa da menina aprendeu a chupar cerigüelas e acerolas.

NÃO FOSSE A MIÚDA, viveria sozinho. Nunca havia namorado. Não fosse um buraco feito no muro para meter o focinho, jamais teria beijado uma cadela. A vizinha, uma bruxa largada pelos filhos e marido, já havia cimentado umas dez vezes. Mas dez vezes ele abriu.

NÃO ERA JUSTO A INHA não ter um irmão ou Rompe Vento não ter-se casado. Filha poderia até ser única (aceitaria), mas Rompe Vento não poderia passar pelo mundo solteiro e rapaz velho. Era questão de animalidade. Dizia. E outra, estava próximo do Natal e o dálmata nunca havia ganhado um presente. Só comida. E isso era a mesma coisa que dar roupa, em dia de aniversário, pra criança.

PRA FUGIR DE MAIS um filho, optou pelo menos trabalhoso. Comprou Ísis, uma dálmata já crescidinha. Na noite de Natal a apresentou pra Inha e Rompe Vento. Enlouqueceram os três. Por um tempo, a menina até se esqueceu do irmão. E Rompe Vento, eterno enquanto durou seu amor de cachorro por Ísis, foi feliz até dois natais seguintes.


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