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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O romance do bunda-canastra

Demitri Túlio


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15/12/2007 00:07


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UM NAMORISCO ENTRE UM menino e outro menino assustou os pré-adolescentes do grupo de jovens da igrejinha de Jesus Cristo Pequeno da Infância Abençoada e Imolada. São Raimundo. Fim dos anos 70, era improvável não ter preconceitos e medo de lobisomens. Ainda mais com a chegada da Renovação Carismática, cheia de moralismos e pode-não-pode. Foi ela que iniciou na paróquia, o desmilingüe da Teologia da Libertação. Pelo menos entre fedelhos e fedelhas.

E FOI MAIS OU MENOS ASSIM, o sábado do romance bunda-canastra. Os sábados, à tarde, eram tempos confusos dos 13, 14 e 15 anos de idade. Legais também. De se encontrar no grupo e terminar cochilando na capela da luz vermelha do Santíssimo. De não dizer nome feio, de não pecar pensando nos peitos rijos das meninas fartas e de meditar com a música do padre Zezinho ou instrumental das Paulinas. Cid Moreira recitou algumas vezes o Sermão da Montanha, mas não era hit. E o Jornal Nacional era chato.

SIM! ANTES DA HORA DA capela, onde ficávamos descalços em sinal de respeito e os hormônios tinham de apascentar, fofocávamos, paquerávamos e emendávamos pout-pourri de cantigas. Enquanto a Renovação não chegava, berrávamos: o caminhando eu vou, para Canaã. Caminhando eu vou, para Canaã... Glória a Deus, caminhando eu vou para Canaã...

E ERA BOM E ANIMADO dizer que no "Egito escravo eu fui, sim, sim, oh sim. No Egito escravo eu fui do rei faraó. Triste, bem triste estava, meu coração chorava, liberta-me, Senhor...". E desafinar feito um Zé Ramalho. Vida de gado, povo marcado eh, povo feliz! Era o povo de Deus que no deserto andava, mas à sua frente Jesus caminhava... Também sou teu povo, Senhor, e estou nessa estrada. Perdoa se, às vezes, não creio em mais nada...

NUM DAQUELES DIAS não nos reunimos no colégio e fomos parar na casa de um dos meninos que morava com o irmão. Pais do Interior. Terminada a reunião, 18 horas, era tempo de voltar pra casa. Quem tinha bicicleta (só os filhos de pai industrial, bancário e militar) ia de duas rodas. Outros iam a pé pela Zé Bastos e alguns, de cambão. Os dois ficaram por lá.

FALARAM BESTEIRINHAS, trocaram revistinhas e coloram figurinhas do Amar É... Um levou um saco de Piper e o outro, Azedinhos. Resolveram trocar. Foram trocando. Apareceram não sei de onde Maluquinhas. Um piper por um azedinho, depois uma Maluquinha... Pirulito Zorro, Drops... E nessa história foram ficando até que amanheceu e uma mãe deu por falta do desaparecido. Nem ficha telefônica, nem recado pelo vizinho.

TINAHM IDO PARA O GRUPO de jovens no sábado, era domingo. Procuraram no necrotério, na Assistência Municipal, no mar dos afogados e no Copom. Apareceu e foi pegue na mentira, os bolsos cheios de bombons. Maluquinhas, piper e azedinhos. Abriu tudo e foi humilhado... Mariquinhas!

FOI ASSIM E NUNCA mais respeitaram os dois no colégio e no grupo que se desfez e virou Renovação. Fim dos anos 70, começo dos anos 80, medo de lobisomens... "Fica sempre, um cheiro de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas..."


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