Demitri Túlio
01/12/2007 01:29

FICOU DAQUELE JEITO depois de o romance desandar. Teve um desluzimento que descambou no abirobar. Abilolou. Após tratamento de um mês, voltou quase à normalidade medíocre de qualquer vivente. Essa do mesmal de todos os dias, faz-se e se repete o relógio. Pelo menos, havia deixado de corruchiar. Vestia-se de amarelo e estalava numa cantiga sem fim. Era até bonito, mas tinha uma hora que perturbava os de casa e os alheios.
NUNCA DEU SORTE COM relacionamentos. De um para o outro, demorava anos para engatar um novo. E viu-se mais desesperada depois que saiu dos 25 e, até os 30 e poucos, continuava sem ninguém. Nem filho havia feito, enquanto as amigas da época de Redentorista já haviam parido pelo menos duas vezes. Ah, um filho! Fazê-lo nem que fosse independente. Mas a mãe era contra. Principalmente a mãe. Um tipo esquisito que adorava se fazer de coitada. Matasse a mãe, então!
MAS NÃO. FAZIA O QUE a velha queria e não conseguia remoçar. Como havia perdido o marido, fez a filha substituí-lo na companhia e dor eterna. Talvez por isso o jeito macambúzio e o reclamar constante. Era bonita, busto farto, pernão e outros atributos de se ver por sobre o jeans. Mas não sustentava um idílio.
IA BEM ATÉ UMA SEMANA, quinze dias. Depois, debulhava um rosário de lamúrias e reclamações sobre isso ou aquilo. Nada era bom, tudo tinha um defeito. O fusca azul deveria ser vermelho. A torre Eiffel era horrorosa. A comida engordava, mas ela devorava até o fim. Lambia o pires e tascava a do namorado. O trabalho era ruim, os amigos insensíveis, ninguém a compreendia. Tudo era culpa dos outros...
NO DERRADEIRO NAMORO, findou com o rapaz repetindo aquelas desculpas amarelas. Você é uma pessoa especial, merece ser feliz e coisa e tal. Uma mulher que todo homem deseja. Carinhosa, inteligente, bonita de corpo... Por isso, você merece uma pessoa que te ame de verdade. Não que eu não te ame. O contrário, adoro você. Fosse pra escolher, você seria a mãe de meus filhos. No entanto, estou passando por uma fase difícil e confusa de minha vida. Além do quê, também, estou precisando de um tempo só pra mim. Entende? Acho que a gente poderia ter-se encontrado em outro momento... Bom!
CAIU NO CHORO E, aos berros, enfurnou-se no quarto. Abirobou, abilolou. A mãe, velha, gostava de tê-la sem ninguém. E a doida engatava uma mania na outra. Passava horas e horas lavando o banheiro da casa. O dia inteiro. Saía arroxeada, dedos engelhados. Limpava tudo, espanava tudo. Tinha nojo de tudo. Da cordinha encardida da descarga, do ouvido que sangrava de tanto enfiar palito de fósforo com algodão. De andar descalça, de gente que comia panelada, rabada, tripa frita...