Demitri Túlio
17/11/2007 00:49

DEDICAVAM GRANDE ESTIMA um ao outro. Bem queriam-se. Reciprocamente. Bem querido dela até depois que morresse. Prometeram-se. Tempos de namoro, conversas na praça das Flores e a jura de volver ali para renovar sentimentalidades. Fizeram sim, isso até alguns anos depois que resolveram se casar.
TANTA INTIMIDADE, PENSAVA... Havia das coisas boas e das estranhezas. O delirante era vê-la pôr e retirar, por exemplo, o sutien preto e desenhante. Coçar sutilmente o seio (com as pontas das unhas grandes e bem feitas) ou enxugá-lo de alguma transpiração (com a palma da mão). Havia mais. Gostava de brechá-la descabidamente quando a inha perdia a noção dos pudores.
PERNAS ABERTAS NA hora de sentar-se à mesa posta. Vidro translúcido e rabo de olho indiscreto. Na hora do sono, quando não era junho de São João (quase todo dia pulavam fogueira), fazia esforço de dormir depois dela. Esperava para espiá-la deitada de bruço e vestida poucamente. Achava que já havia decorado todos os descaminhos, mas todo dia enfurnava-se em outros. Buliçosamente, com os olhos, amiudava-os
INTIMIDADES TAMBÉM TORNAVAM excitantes cheiros, cores e correr de tempos apressados. Dos suores, sabia que gostos tinham. Rastro pra esquadrinhar vontades daquilo ou daquilo outro. As unhas, as sobrancelhas feitas e as pernas de transpassar e lambuzar creme. O carmim, o azul, o amarelo, o chocolate e o branco... Enxergava recados e dizeres de dentro.
MAS VIU-SE UM DIA INDELICADO. As intimidades passaram a aborrecer e ranzinzar. Não queria vê-la com dores de barriga e papel higiênico. Não suportava o mal hálito, comum dos começos de manhã, e recusava os beijos e os bons dias. Reclamava da barriga saliente, das calcinhas puídas de dormir. Do sono que impedia de coisar, das crias... Disso e daquilo algum.
DELICADEZA. HAVIA PERDIDO nalgum tempo. Ouviu-se um dia contando coisas que achava piada sobre a esposa. Disse para que todos rissem (gargalharam) e foram emendando uma história na outra. Indelicadezas e relinchadeiras.
ELAS TAMBÉM FIZERAM roda e foram debulhando. Do bucho quebrado do ex-atleta, das bebedeiras, do time acima de tudo, da mulher do vizinho que era mais bonita, das brochices, dos silêncios quando a televisão quebrava, da ausência de flores e bilhetes, da falta que faziam os beijos de boca e língua e Ice Kiss.