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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Dona Elça, Santa Mazzarello

Demitri Túlio


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13/10/2007 00:13


NA HORA DA ARGÜIÇÃO, todos ficavam de pé. Matemática ou português com dona Elça. A tabuada ou os tempos verbais deveriam estar na ponta da língua. Ou então recreio sem brincadeiras, nada de merenda e nem chance de ir ao banheiro. Quem acertava três perguntas sentava. Quem não sabia ia ficando feito planta pra engrossar o mocotó.

A LOIRINHA SABIA DE tudo, mas engasgava na hora que os olhos de óculos de dona Elça se arregalavam na ponta de seu nariz. A professora, dona da escolinha Santa Mazzarello, marchava entre as filas da sala miúda e bufava na resposta de burro. Soltava fogo pelos dragões e arrebentava a régua grande de madeira na carteira.

FEZ-SE ATÉ UMA LENDA, de que numa dessas porradas, houve traumatismo craniano no quengo de mastodonte que não soube responder quanto era 8 vezes 7. Quarenta e seis, teria respondido com convicção o jumento que sorriu inseguro. Como enxergou as veias do pescoço de dona Elça incharem, engasgou e cuspiu um 66. Foi pior.

LENDA OU NÃO, A MENINA tinha cólicas e arrepiava o pêlo no instante em que a velha, vermelha, ordenava que tagarelasse o presente do indicativo do verbo caber. Mijou-se um dia. Havia dado um branco e a vontade de vomitar a fez desfalecer. Nem se agitassem os demais, um álcool nas ventas e nos punhos tornaria a desmilingüida. A argüição continuaria e assim que estivesse melhor, lavaria o chão mijado.

EU CAIBO, TU CABES, ele cabe... Tremia-se toda e ainda respondeu na segunda e terceira rodadas, a tabuada de 8 e 7 calculando o noves fora. Além de ter de acertar, apontando, todos os pontos cardeais. Tadinha! Estudava à tarde e, no retorno pra casa, sequer tirava a farda enquanto a mãe não ensinasse o dever do dia seguinte.

ERAM HORAS TENSAS as manhãs que antecediam o começo das aulas. Frio, mesmo no calor, e tremeliques até o momento em que a régua de dona Elça entrava na sala. Salvava-se quando tia Estelita vinha dar Ciências e Estudos Sociais. Não era de carões, de testes relâmpagos, de achar que os melhores alunos eram os de matemática, e nem de colocar ninguém em pé ao lado da lousa.

DONA ELÇA SE FOI. Não era bruxa, nem berrava por ruindade. Era professora de outros tempos, moça velha e caritó. Caderno sem arame para não arranhar a carteira e proibido chupar as mangas cheias do quintal. Mas, assim como os gritos e as reguadas, são inesquecíveis as rainhas do milho, a dança da fita, as notas vermelhas no boletim e casa de esquina nas Damas.


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