Demitri Túlio
06/10/2007 01:01

PASSOU MESES RUMINANDO a vingança. De um jeito tal que não conseguia pregar os olhos. E se pegava nesga de cochilo, sonhava se vingando. Era evangélica fervorosa, cabelos grandes, pernas por depilar, axilas cheias e contornos. Era dessas que sabia todos os capítulos, versículos e recitava parágrafos inteiros de Isaías. Mas havia de se vingar, não merecia ter sido traída. E se não o fizesse, morreria talvez degustada por uma gastrite. Vingar-se-ia.
TÃO DEVOTADA. DEDICADA à mesa, filhos e cama! Mesmo crente, os pudores restavam da porta da alcova pra fora. Dentro, se transformava em uma Madalena Antes de Cristo. Convicta. Desarrependida e desdenhada das faltas. Permitia-se a tudo, nada era empecilho e nem a constrangia. O marido, um pastor cheio dos moralismo, derretia-se e grunhia perturbador. Uivava, arranhava as paredes e torcia-se de prazer.
ENTÃO NÃO HAVIA MOTIVOS para traí-la. Não carecia buscar em outras. Pensava assim e abominava o adultério pelo adultério. Dissesse o que cobiça e ofereceria de bandeja. Ela era incapaz de enxergar outro homem (ou mulher que fosse) com olhos luxurentos. Cobiçava o próprio marido cada vez mais. Sem contar, que mesmo cabeluda nos tornozelos e intimidades, não sentia menos que ninguém. Era mulher de fazer chorar, pernigrossa. Busto denso, dentadura incandescente. Corpo e mãos buliçosas.
TÃO ASSIM QUE O MARIDO partia-se em ciúmes. Constrangedor e de dar pitis. De não deixá-la desfilar nua ou de toalha em frente ao televisor acesso. Não havia espelhos no quarto e pedia para que só se pintasse, quando ele fosse se servir dela. A esposa o fazia não por submissão ou medos. Gostava do homem e ele também, naturalmente, aprontava segundo os instintos dela.
POR ISSO NÃO ADMITIA a traição. Fora a Bíblia agarrava-se a um derramado escrito de um tal Catulo apaixonado ou passional. Passava horas a ler e remoer cada verso e a engordar a vingança. Sabia lá, o salafrário do esposo, o que vinha a ser uma dor de uma paixão traída. Ser apunhalada após tanta devoção! Estava ali a fonte de seu ais. Então o carpia entre o doce do bem querer e o travor da decepção.
A VINGANÇA VEIO ESQUISITA. Era preciso cometê-la para barrar o choramingo perenal e a aperreante merencória. Bastava. E não foi atrás de outros homens, fiar amantes. Não. E também sabia que o marido a amava e estava verdadeiramente arrependido. Mas não engoliu a prevaricação. Não.
DE TUDO QUE ERA deslumbrante na esposa, enfeitiçava-se com os dentes da dona. Brancos, alinhados, cada um em seu lugar e tamanho tal. Nunca experimentaram uma cárie. Encontrava lasciva neles e um sorriso inopinado, poderia apressar o gozo do adúltero. Fez a devotada o seguinte, mandou que o prático arrancasse um a um. Extraísse cada qual e aprontasse dentadura e copo. Fez isso e o homem foi vingado, desmilingüiu-se. Essa história não é absurda e corre na aldeia pequena. Aldeota.