Demitri Túlio
22/09/2007 00:46

CHORAVA FINO E INTEIRIÇO. Igual a chuva pouca que incomoda e não deixa fazer sol. Durava horas, dias, e não chovia grosso. Um empanco de vida, enfado e aparência que não ia deixar, nunca, findar a neblina. E ia chorando um ano, dois, três, dez. Sem pausa e verão. Desconsolada. Imagine a noite, silente e madrugada, pingando chato.
CHOROU ASSIM PORQUE depois da filha única, fez-se infértil. Então, não era terra natenta. Nunca mais ia embuchar, inchar os peitos, alargar as ancas e vomitar o estômago. Gostava dessas gasturas e não era o mesmo que buscar cria desafortunada no sertão ou topar com rebento na soleira da casa.
TINHA VOCAÇÃO PRA mãe e derretia-se em medo de perder a cria, parida de seus dentros. Perturbação de mãe de filha única. Sempre a vigiar a respiração do sono da infanta. Pra ter certeza de que estava viva, de que não havia se ido antes do tempo supostamente presumido.
POR ISSO NÃO A DEIXOU pagã por mais de uma hora. Ainda se derramava em dores, parteira de mãos pesadas e espírito atravessado. Foi o tempo de o padre chegar, desapear do animal, arrumar os paramentos e fazer duma caneca de alumínio, cálice. A mesma bacia que aparou os troços que saíram das vergonhas com a menina serviu de rio Jordão.
CHINELOS EMBORCADOS NÃO poderiam estar. Desvirava. A filha não virava bunda canastra, não restava sozinha e nunca andaria de avião. Cria única. Não tomava banho de rio e não se balançava na goiabeira de quintal. Poderia cair, quebrar o pescoço, ralar o joelho e pegar infecção definitiva.
MESMO ASSIM, A MUCUINHA não vivia macambúzia. Pelos inversos. Ignorava os assombros maternos e ia indo sem artifícios e nauseabundos. Apesar dos olhos alheios que olhavam tudo, escapolia quando dava e experimentava. Sem arrancar chaboques e continuar viva.
FOI MENINA ATÉ QUANDO estava escrito nos destinos. Mas após virar moça, agatiou-se, abonitou e despertou a cegueira de Inhor. O Desmedido que um dia foi anjo e depois se enfurnou no oco da terra abrasada. Abriu-se um dia o chão e, quando a Inha cheirava uma flor, arrastou-a para a morada dele. Pra sempre e nunca mais.
A INFÉRTIL, QUANDO SOUBE, passou a chorar do primeiro ao último dia dos 365. Choro fino e doído. Intermitente, neblina que se pensa não molhar. Miadeira sobre a terra e gemido. Tome lamentação e choramingo. Foi tanto que o Desmedido se perturbou. Não se sabe se compadecido ou aperreado.
DE FINDO, SEI QUE HOUVE permitido pra cria subir em tempo de flor. Tinha com a mãe e, depois, volvia para os confins. Aí, iniciava o tempo de choro fino, doído. Neblinava e não deixava fazer sol.