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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O menino

Demitri Túlio


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15/09/2007 00:58


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QUANDO CRESCESSE, O MENINO queria ser menino. Descarecia trouver o rumo, desmerecia descer da goiabeira. Era tão bom andar só de calção, tomar banho no rio pelado, correr descalço e ouvir a mãe ralhar por causa do sol quente. E passar violeta em gato leprento e criar cachorro vira-lata, pulguento e explodir carrapatos!?

QUANDO CRESCER, VOCÊ quer ser o quê? Por ele, seguiria menineiro. Cheio de porquês e pouco interessado em coisas definitivas, compromissos amarrados e lições a ferro e fogo. Coitado do pai dele, trabalhava feito um jumento. Bufava feito boi. Voltava pra jantar, dormia pra se acordar e começava tudo de novo.

DIZEM, NÃO DÁ PRA imaginar, um dia, o pai do menino também havia sido menino. Doutor em brincadeiras e teses desimportantes. Craque em diagnosticar esqueletos engembrados de raias mal alinhavadas. Sabia quando a pipa pedia rabo, quando desmilingüida se bandeava para o lado ou, menos esperasse, embiocava palito de coqueiro.

PRA ARRAIA NÃO PAPOCAR, carretel, linha e tudo, amarrava novamente, refazia o cabresto, diminuía a barriga ou cozia grude nojento. Papel de seda vermelho, céu azul, vento traiçoeiro. Era o rei da bila, perna-de-pau do rachinha, pulador de muros alheios, companheiro dos calangos. Ria sem ter piadas, adorava comer cajarana verde e bocejar sem mão na bocarra.

REPETIAM QUE TINHA DE CRESCER. Suar, batalhar, passar no vestibular, saber trocar a lâmpada, aprender a dirigir, casar, comprar casa e ser alguém na vida... Ué, achava que já era. Ser menino, em suas dissertações desimportantes, era mais importante do que ser um avião de guerra. Aliás, nunca pensou em ser governador. Presidente? Só se fosse da esquadrilha dos manés-magros.

DE TANTO TER DE CRESCER, foi se desmeninando. Adulterando-se. Não comia mais feijão com farinha feito capitão, não roÍa pés de galinha cozidoS e não mais desfalava despropósitos. Media cada passo, sorria amarelo e ouvia, mesmo sem querer, quem se achava pra lá de importante. Fazia sala pra gente chata, ia pra festas infelizes e casamentos barulhentos.

DE TANTO DEIXAR DE ser menino, começou a bodejar. Viu que estava ficando estranho. No nariz nasceu um focinho, na bunda uma cauda e a boca não parava de mastigar. Nos pés cresceram cascos. E lá se ia, todo os dias, focinho, cascos, pasta preta e pressa...


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Valeu, Demitri!

jose edmundo filho

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