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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Colégio de padres

Demitri Túlio


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07/09/2007 23:29


ESTUDARAM OS DOIS EM colégio bom, de padre e preparação para a crisma. Confirmar o batismo. Obrigância de guardar os sábados à tarde para ter com o sacerdote irlandês e outros anjos filhos de famílias classe média.

ENQUANTO CARPIAM NA capela mutema da escola, a molecada da rua rachava do meio para o fim da tarde. O pensamento dos dois não era bem o futebol. Rachavam nada, mas havia cavilosices deles e cumplicidades de alguns pernas de pau. Se bem que os dois não se faziam de rogados e aproveitavam pra cheirar (na sacristia) os paramentos e a batina de Peter.

PETER NÃO IMAGINAVA. Um deles, de tão enlouquecido pelo padre, lambia o cálice do devotado e imaginava a barba Falcon do estrangeiro roçar-lhe o caminho que enveredava a coluna cervical. Havia nas coisas do homem alto, olhos azulados, mãos alopradas, um perfume de talco barato. Desses comprados em bodega de esquina. Esquecido nalguma prateleira, onde também dormitavam aguardentes empoeiradas e pouco conhecidas.

ENTÃO TOLERAVAM OS SÁBADOS. Assim, assim. Fervilhantes onde não deveria ser. Piscantes. Se as mães soubessem, enfartariam e uma banda do corpo arruinaria. Antes boa morte a restar boca torta e viver no desgosto de filho pacosa. Ojerizava as imagens de São Sebastião e aquele jeito esquisito de morrer retorcido.

MAS NÃO TIVERAM OUTRA DESTINAÇÃO. Nasceram desiguais e foram viver como a natureza talhou. Viveram tudo que solfejavam e o que nunca imaginavam sorver. Até o dia que a congregação descobriu o saco de gatos e correu com o padre. Tempo após, o mais maluvido deles pegou também o rumo da Irlanda. Sentia falta do talco na batina e de lamber o cálice. O outro não teve coragem de ir e foi ficando. E pra viver, tranformava-se em Madonna nas boates lheguelhé.

O AMIGO VOLTOU UM DIA. O irlandês havia morrido de mal indizível, meio dos anos oitenta. Voltou e pouca gente o reconheceu. Estava um fiapo e havia sido um homem muito próximo de uma mulher. Cabeleira cheia, ancas de égua. Pra completar, na Europa, havia botado peito. Motivo de inveja branca. Cobiça.

A DOENÇA VEIO IMPIEDOSA. Perto de se definir, assistido unicamente pelo amigo, soprou no ouvido que autorizava retirar os silicones do busto. Presente. Não existia contaminação, havia consultado o médico. Bastava assear. O companheiro titubeou. Cobiçava, mas morbidez não o apetecia. Havia estudado em colégio de padres.

VOLTOU À CABECEIRA do quase findo e agradeceu. Os peitos, não. Mas a batina, a caixa de talco e o cálice trazidos da Irlanda... Sim! Faziam retornar a adolescência. Já no suspiro, o outro balançou a cabeça negativamente. Não. Furtaria do caixão. Furtaria, mas havia estudado em colégio de padres.


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