Demitri Túlio
01/09/2007 03:35

RUBEM AMOU-A À PRIMEIRA VISTA. Adísia, uma gorda como nunca se viu. Fê-lo entrar no comércio do pai e teve de se esfregar em seu busto farto. Entre a porta não passariam dois. Embora, ele, de uma magrura tísica. Dali pra alguns meses, casariam-se. E desejavam-se mesmo após vinte e cinco anos de matrimoniados. Não havia filhos. Porque não carecia.
NUNCA HOUVE TAMBÉM DESEJO pelo adultério. Nem um, nem ela. Jamais disseram tantim assim um do outro ou desdenho. Contrário. Empabulava-a o quanto cabia e restavam bilhetinhos amáveis toda vez que saía e a gordalhufa estava a dormir. Ela também fazia dos seus e, se escovasse os dentes antes do marido, colocava a pasta na escova. Gentileza.
E NÃO ERA O FACTÓIDE DE ter propensão para o gordural que lhe faltavam pretendentes. Não. Quisesse, abanasse o buzanfã e delicadamente ajeitasse os peitos no califon (mania encantadora) que chovia de vira-latas e outros famintos no açougue do pai. Não queria. Quis o magrém e pronto.
O MAGRIÇO TAMBÉM NÃO ERA só pele, osso e ventas. Porém, sobravam encantos e generosidades nele. E fulanas dadivosas. Mas elegeu a medonha pra sua e somente ela. Prometeu morrer e viver a outra vida a seu lado. Achava-a a mais bela, jeitosa e apetitosa de qualquer lugar ainda não inventado.
SUPLICAVA PARA QUE NUNCA emagrecesse. Fizesse isso, e somente isso, poderia descambá-lo dela. Nem ele inventasse de fazer engorda para encher os seios da face, o peito fundo e os dedos longos e habilidosíssimos. Queria-o, sempre e quase toda hora, magriz.
UMA SANTA. ASSIM A ENXERGAVA quando ajoelhajava-se e rente às vergonhas dela entoava uma ladainha de furças e grunhidelas. Às vezes, mãos no buzanfã para não se desatarrachar. Às vezes braços esguiçados, alcançando auréolas e bicos arroxeados. Eram enormes e ele se refestelava.
COMO NUNCA SE VIU! Por ela nutria as mais tórridas (e ao mesmo tempo pueris) sentimentalidades. Apetecia-se de qualquer de suas dadivosices e lugares no corpo. Havia nela docilidades e safadezas indizíveis. Gostava que a senhorona percorresse-lhe da nuca ao cóccix com as pontinhas das unhas grandes. Chegasse perto do mucumbu e retorcia-se.
TUDO NELA ERA DE ESCORRER salivas. De beijar afogado e se abrir mais ainda porque bem sabia receber. E ela insistia com o magruço, mesmo depois da vista delirar e as coxas trementes. Instante logo após, buscava mais. E não importava se murcho. Sabia que o magricela era além e não arredava. Inteiriçava com os dedos hábeis, a pontinha da légua de língua ou com a cabeça do joelho. Adísia de Rubem.
* Esse conto é dedicado à professora e amiga Adísia Sá.