Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Das Antigas

DAS ANTIGAS

Voltar a Patópolis

Demítri Túlio


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

25/08/2007 00:27


POR TEMPOS FREQÜENTEI
Patópolis. Ficava em qualquer esquina onde tivesse uma banca. Entrava por lá e me perdia, tardes e tardes, perambulando em suas praças coloridas e ruas de calçamento. Patópolis tinha cheiro de páginas novas de revistinha recém-chegada. Um aroma de pão quente com manteiga desmilingüindo-se no café preto e mergulhar no copo.

CHEIRAVA TAMBÉM A TORTA de maçã da vovó Donald, esfriando na janela. Pensava eu, que janelas e parapeitos existiam pra esfriar tortas. Porém, maçãs não nasciam lá em casa. Goiabeiras. A não ser que padecêssemos da garganta e nos atacassem com Bezetacil pra desinflamar as amídalas de sorvete. As argentinas vinham como remédio e desejo canelau. Enroladas em papel roxo de encomenda e infância.

VOVÓ DONALD NÃO ERA minha vó, mas desejava ir nas férias ao sítio dela e topar com algum urso na Aratuba. Acreditava que lá existiam maceeiras, pés de amora doces e morangos. Tudo verdinho e no inverno nevava. Bom pra brincar de fazer boneco de neve quando chegasse o Natal e encontrar Huguinho, Zezinho ou Luizinho com um gorro de Noel.

EM PATÓPOLIS, COMECEI a encafifar, só havia sobrinhos, tios e avós. Nem pai, nem mãe. Patos órfãos e psicologicamente perturbados. Um unha de fome, outro esquizofrênico, um que se achava sortudo. Cachorros patetas, rato metido a herói e dono de um Pluto, cavalos mal resolvidos, papagaios malandros e um periquito inventor.

AS FEMININAS, COITADAS, eram chatas e titias. Namorados que nunca se decidiam e o tempo passando em almanaque. Toda moça que virava coroa, pra mim, era Margarida. Minnie, Clarabela. E, engraçado, geralmente tinham uma bundona, eram gulosas e combinavam o laço vermelho do cabelo com a calçola de bolinha.

MINTO. OS IRMÃOS METRALHAS (gostava deles) tinham mãe. Malvada e boa. Mas o Mancha, o João Bafo-de-Onça, o Ranulfo, a Madame Mim, a Maga Patalógica e o Patacôncio, não. Nem o Morcego Vermelho, o Super-Pateta (e o super-amendoim), o Super-Pato ou o Lampadinha. Nem uns meninos da minha rua.

ANDEI COM ESSE PESSOAL por muito tempo. Brinquei. Foram eles que me ensinaram a ler. Depois fui apresentado a uma boneca de pano que falava, um sabugo de milho que decorava a tabuada e um vidro azul que pensava. Vez ou outra volto a Patópolis. E nunca achei que o Pato Donald é gay (se fosse não teria problema) e que o capitalismo é a melhor coisa da infância.


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato