Demitri Túlio
18/08/2007 02:52

QUANDO O PAI FOI EMBORA, fez-se medo nas noites de dormir. E criança entende, mas não entende o fim de se querer bem. Na verdade, se queda confusa e não se conforma com invencionice que justifique o apartar. Bem querer seria pra vida inteira e após a ponte. Doce e eterno como o amor de menino pelo vira-latas ou da menina pela boneca de pano.
FOI-SE EMBORA SEM TER sido por morte morrida ou desavisada. Arengou com a mãe e sumiu até dos rebentos. Então à noite, esticada e ruidenta, era suplício atravessá-la. Noite lá na casa, sempre se dormiu no breu e enrolado no lençol. Dos pés à cabeça.
BASTAVA CHUVISCAR NO tubo da televisão e a última lâmpada era apagada. Corredor de redes atadas e cumeeira de telhado alto. O armador, sem óleo, rangia. Os gatos pisavam de botas. Podia ser ladrão! No basculante, um rosto espiava e todas as almas vinham ter no escuro.
AS GOAIBEIRAS, AGORA POLEIROS, tinham unhas que azunhavam as telhas. Vento chato. Vez em quando, um ou outra galinha alarmava. Como se tivesse sido agarrada pelo pescoço. Seria um gatuno! Poderia ser também o cassaco ou a raposa!? Pela manhã, o galo enredaria.
NUM SUSPIRO DE CORAGEM, pulava-se da rede e metia-se o pé na carreira para a cama da mãe. Ela bodejava, ralhava. Dava viagens devolvendo os seus, feito gata com as crias na boca. Três, quatro rebentos em cima dela, aninhando-se. Procurando refúgio, sufocando-a. Enrolados nas pernas, abraçados ao pescoço, encostados aos pés. E ainda miavam quando chegava outro. Eram seis.
NÃO ME LEMBRO DE QUANDO disseram que a noite era cheia de almas e que havia medo no escuro. Vovô falava que alma era o vão da sola do pé. Só. Ou miolo pra história de botija. Quando se foi, mesmo sendo um homem bom, não o queríamos de volta na hora de dormir.
A NOITE ATRAVESSAVA TARTARUGA. E eram os galos que nos aquietavam a imaginação. Cantavam e, mais um bocadinho, faziam amanhecer. Traziam as manhãs na corneta e espantavam, pra bem longe, os sustos e quem quer que estivesse debaixo da rede a espera de nos puxar o pé.