Demitri Túlio
28/07/2007 01:55
TIVE UMA INFÂNCIA de pescarias e piabas, de futebol no portão, de subir em goiabeiras e de me apaixonar por quem era mais velha. Velha assim, dois ou três anos de diferença. Ou então me deslumbrar por alguma tia, ou senhora casada do busto farto, ou a professora que perdia tempo ouvindo minhas besteiras e quase nunca ralhava.
HAVIA DIAS DE ESCALAR até o olho da goiabeira e, lá do alto, sonhar com algum sonho além do que não podia. Não acordava aos domingos pensando no tênis Montreal com solado anti-microbiel. Queria, sim, estar no foguete e berrar "simmm!" na hora de trocar um Aquaplay por uma geladeira vermelha.
A CONSUL IA PRA MAMÃE, mas pediria pra usar o congelador. Vender gelo, fazer dindin de goiaba e juntar dinheiro pra fugir com dona Antônia. Casada, um filho bebê, assumiria a cria (apesar de nem poder com ele nos braços). Fugiríamos num fusca zero, azul All Star, quando o rinoceronte do marido dela estivesse hibernando. Cachaça. O bom é que ainda teria de aprender a dirigir.
BEM, MESMO TENDO FEITO a primeira comunhão, não enxergava no desejo de acudir (e amar) dona Antônia um pecado cabeludo. Sei que dona Julinha, uma senhora doce, ensinadora de catecismo (e que tinha uma escoliose notridâmica), repetia que desejar a mulher do próximo não levava ninguém para o céu.
ATÉ QUERIA IMAGINAR o céu, anjinhos da pintinha miúda, santas sem piupiu, mas tinha medo de enterro e de cemitérios. Então estava distante pra mim, pirralho de 11 anos, crer em vida eterna além da morte. Nos meus comichões, celestial seria furtar dona Antônia e beijá-la inocente. Moça de 24 anos, farta, bem desenhada e merecedora de um menino como eu.
NÃO SEI COMO ACABOU se casando com aquele vilão remelento que fazia dela gato e sapato. Um jumento (jumento, não. Coitados dos jumentos!). Uma coisa pior de que o Munrah ou o mais mal-halitento e corubento dos malvados. Uma bicho-de-pé.
SEI QUE FOI ASSIM, não consegui raptar dona Antônia e cresci ouvindo-a chorar. O larva migras tinha o costume de bater nela, de gritar em vez recitar gentilezas. Um inferno. Pra se ter idéia, o bebê tinha febre toda vez que o pulguento estava em casa. Nunca sorriu.
MAS UM DIA, ESGOTADA de tanto desamor, enfiou-lhe o ferro quente de engomar no rosto. Depois o acertou com a parte de cima do filtro de barro e o fez findar pra sempre. Desnorteada, ficasse ali, seria enjaulada e não haveria ninguém por ela. Apenas eu, agora com 14, um bando de vira-latas amigos meus, gatos livres e passarinhos que gostavam de ser passarinhos.
NA GARUPA DA CALOI, que caía a corrente (ainda não tinha o fusca azul-all star), corri com dona Antônia e o rebento dali. Foi-se embora em um ônibus de ir para não sei pra onde. Ganhei um beijo no rosto, gratidão e saudades.
Ai Demitri... é tão bom ler suas crônicas. Você está se superando, viu. Parabéns! Beijos, Cláudia Monteiro.
cláudia monteiro
Linda crônica. Rem,iniscências d qualquer garoto que como eu amei, e fui amado, prá inveja de todos, a linda trpezista do circo, que quis fazer de mim assitente de palhaço e galão dos dramas que encenavam no final do espetáculo. Belos tempos, lindos dias.
FRANCISCO AMAURY FEITOSA