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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Os espinhos

Demitri Túlio


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21/07/2007 04:21


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FAZIA MUITO FRIO na cidade, de entortar. Transpassava a pele, pedrava o sangue e rachava os ossos. Não havia tarisca que acendesse fogueira, nem flanela que furtasse calor. Gelado e vontade de morrer. E por esses tempos amuados, pouco se bradava. Quando havia fartura, canja quente e café pelando.

ERA TEMPO DE DORMIR todo mundo no mesmo cômodo. Nem que apertado. Melhor. De encostar um no outro e pegar no sono debaixo de alguma asa de galinha. Ninho. Era assim em toda casa da Rua de Cima e na cidade quase toda. Os grandes tomavam chá de canela e os miúdos, chocolate. Havia os generosos que contavam histórias de pescar sono.

ASSIM IAM BOCEJANDO, um a um. Frio e um bocejo atrás do outro. Abrindo a boca, embaçando os olhos, tomando gosto, aninhando-se. Mas na casa dos padres não era daquele jeito. Encostavam-se uns nos outros e, quando menos se esperava, criavam espinhos. Espetavam-se.

UM SABIA QUE O OUTRO cortejava as mulheres casadas e infelizes. Vinham ter com ele e comungavam nas três missas do domingo. Oito, cinco e sete. Mulas-sem-cabeça ou bando de pardalocas nas cumeeiras da Sé. Barulhentas.

UM OUTRO DAVA BOMBOM em demasia a meninos e meninas. Oferecia presentes, pagava colégios, levava pra passear de carro. Padrinho e beija-mão.

O BISPO TRAZIA DINHEIRO da Itália, na batina, e fazia de conta que distribuía com os pobres. Avaro, era dono da metade da cidade, uma montanha e um lago. Um bonzinho em dias de São Antonio, doava pães. Era mariano.

HAVIA TAMBÉM O QUE morria de vontade de ser a concubina do soldado... E um tal que se empanturrava e vomitava seguidamente. Luxurientos, gulosos, avarentos, vaidosos, coléricos, soberbas e preguiçosos. Gente.

NO FRIO, VIRAVAM porcos-espinhos. Braços, pernas e troncos. Não se achegavam e arriscavam se matar. Num dia de muito gelo, espetaram-se e correram desesperados pelas ruas. Sangrando. Foram fuçar nas portas e morreram nas soleiras.

VIRARAM SANTOS, ganharam estátuas e dias de procissão. De novena em novena, de ladainha em ladainha, de quermesse em quermesse, atravessaram os invernos.


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