Demitri Túlio
14/07/2007 02:43
LÁ EM CASA, OS PASSARINHOS viviam soltos. Plantavam-se goiabeiras em vez de gaiolas. Goiabas doces, serigüelas inchadas e vermelhas, cajaranas verdes e macaúbas. Cantavam muito porque se sentiam bem e não adoeciam da garganta. Gostavam de ser passarinhos.
ENTÃO, EM TROCA DOS NINHOS, agradecidos por nascerem demais, íamos plantando pés de manga, coqueiros, romãs e árvores de dar carambolas. Por causa deles, vinham outros tantos de cantos que nem imaginávamos. De repente, era preciso emprestar a cumeeira enquanto as bananeiras cresciam além dos saltos dos gatos.
QUANDO O DIA BOCEJAVA pra entardecer, vovó se punha a costurar a colcha de cama. Era a desculpa pra fiar, em pedaços, histórias pra se ouvir e sair dizendo. Todo outro dia teria um capítulo. Demorava o tanto dos tubos de linha e até a costura se dar por finda. Dias e dias, até a boquinha da noite e as muriçocas zunirem nos ouvidos. Corríamos pra fechar os basculantes.
MAS NUNCA A COLCHA DAVA-SE por terminada. Alinhavada, já havia passado pelas mãos da bisavó de minha bisavó. Estirava o tempo. E quando chovia, vento frio na ponta do gelo do nariz, protegia as crias das formigas de asas e do aperreio das que tinham as bundas grandes.
SOBRE AS TANAJURAS, VOVÓ contava que um dia elas haviam sido moças, tiveram cabelos grandes, adoravam passar batom e pintar as unhas de vermelho. Mas demoraram tanto pra se casar, botaram tanta banca, que amanheceram formigas. Bundudas, envergonhadas, só apareciam depois das chuvas. No verão, sumiam. Moças velhas.
AS DE ASAS QUERIAM PORQUE QUERIAM ser fadas de historinhas. Vinham voar nos telhados, catar dentes-de-leite. Sonhavam em ser Emília, Sininho, Tia Anastácia, Flora ou Aurora. Voavam tanto que as asas caíam e os pés inchavam, tinham desprendido o andar.
PEGAVAM BICHOS-DE-PÉ e íamos acudi-las. Bacias de água morna e espinho de laranjeira. Um furo, dois gemidos, merthiolate e azul de violeta. Descansavam ouvindo música de cigarra e quando menos se esperava, voavam de despedida.
DIA DAQUELES, JOÃO QUEBROU a perna no quintal fazendo arte. Cortaram o pé-de-feijão. Na escola, ensinaram (a menina desejava ser cientista) que um caroço no algodão, sol e uma aguazinha ia dar numa história do tamanho de um gigante.
FEZ A EXPERIÊNCIA DO JEITO que a professora disse. Alice. Depois de dormir e acordar três vezes, viu a planta se esguichar. Esticou além das nuvens e imaginou... No quintal lá de casa, podia tudo.
Parabéns, a coluna está maravilhosa. Hoje me sentí criança novamente, me fez lembrar o meu tempo "das antigas" lá no interior do meu querido ceará. Atualmente moro em Brasilia, mas não deixo de ler sua belíssima coluna. Muito obrigado por escrever tão bem.
jose edmundo filho
uma delicia seus textos, cheios de poesia e recordações que como hj me encheu de nostalgia e docilidade. obrigada.
valeria