Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Das Antigas

DAS ANTIGaS

O ovo de escarlate

Demitri Túlio


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

07/07/2007 04:27


Clique para ampliar foto


QUANDO O CHÁ DE CAPIM SANTO empestava as manhãs, era certeza de que não iríamos pra escola. O cheiro (quando se é menino, fedor) invadia o nariz e despertava, já tarde, quem deveria está de pé desde as cinco. A sineta batia às 7 em ponto. Mais dez minutos de tolerância e os portões cerravam a entrada. Talvez segunda aula, dependendo da desculpa e do lundu do bedel.

BEM, O CHÁ ERA SINAL DE QUE não havia Walkan na lata (cheirosa!). Ou Guimarães e o improvável Nescafé. Pó, talvez, só nos pés das bananeiras e no chão brejado do girau. Borra. Onde se lavavam o pano de coar e vasilhas sujas de almoço. Ficava debaixo da latada do calvo pé de maracujá, vizinho ao limoeiro que não dava limão.

CHÁ, NO ARRUAMENTO, QUERIA DIZER PINDAÍBA. Quem tinha algum tostão amanhecia com o cheiro do café voando pelos cômodos e a cozinha de filtro e pote. Pão grande, manteiga de retalho ou pote pra quinze dias. Quando o tempo era de fartura: leite de saco e queijo. Ovo, tinha no quintal.

HAVIA UMA GALINHA DE GRANJA, branca, com nome de atriz (Escarlate) que muitas vezes salvava a pátria. Quando era tempo de chá e não havia café (nem pão, nem almoço, nem janta) ansiava-se pela hora do ovo de Escarlate. E tenho a impressão, que penosa era meio mãe. Compreendia o aperreio e só faltava explodir, se espremendo por um ovo de duas gemas.

EMBORA COMPREENSIVA, ESCARLATE não queria ser gente. Adorava ser galinha (e gorda). Já pensou, se na falta do café fosse obrigada a tomar chá de capim santo sem pão e manteiga! Na falta do milho e das sobras dos comeres, ciscava. Petiscava pedrinhas, engolia insetos, pinicava as folhas das bananeiras. Desse bobeira, perseguia cobra de duas cabeças.

ESCARLATE ERA DA FAMÍLIA, desde que foi escolhida (ainda pinto) na feira das terças. Virou franga e tinha um chamego com o galo da vizinha alcoviteira, que dava fé de tudo. Inclusive quando as manhãs não tinham cheiro de café. Resmunguenta, algorenta, arengosa, não entendia porque mamãe não matava a galinha em dias de chá de capim santo. Adorava chupar pés.

ORA, ESCARLATE MORREU DE velhice de galinha. Amparada pelos meninos e meninas foi-se embora numa manhã adolescente. Teve um enterro de princesa, sem tristezas e choramingos. Viveu muito, não fuxicou de ninguém, cuidava do próprio bico, não era invejosa e botou muito ovo bonito. Apesar dela nunca querer ser gente, rezamos reza de missa e enchemos seu caixãozinho com flor de maracujá.


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato