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Das Antigas

DAS ANTIGAS

Desabrido e sem rebuliço

Demitri Túlio


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23/06/2007 03:34


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DEU-SE ASSIM ESSA HISTÓRIA de idas e vindas, de amores desmedidos. Amava-a com tudo que podia e respirava. Ela também. Do tamanho além do bastante. Encantamento sincero, de cuidar um do outro, adormecer perna sobre a dele e amanhecer. Gosto de cravo, cheiro de pipoca, ansiedade e esperas. Eram casados e ainda não havia rebento.

VIVIAM DO QUE COZIAM NOS fornos à lenha da Padaria caseira, vendas pela janela e fila de dobrar quarteirões. Eram encantados os sabores das chegadinhas, dos bulins, marias-malucas, roscas, tapiocas, broas e alguns pães.

ÀS CINCO DA MANHÃ, A CANTIGA do triângulo despertava quem se apetecia. Papel de embrulho, xícara de café, quentura e desmilingue da manteiga. Derretida, Doralice, se botava pra Adolfo. Seu padeiro dileto, preferencial. Talvez daí, a água na boca dos alheios. O apetite da vizinhança.

SÓ ABRIAM A JANELA ÀS CINCO, com os galos e o cochichado da passarinhada. Choviscando ou querendo alumbrar. Pano de coar café e leite pingado. Queijo. Faziam o suficiente pra durar até às seis e trinta. Quem chegasse até aí, comia. Degustava. Caso não, salivariam até o outro amanhecer. Os amores baixavam a madeira, trancavam de ferrolho e iam viver a vida só deles dois.

MAS HAVIA DIAS QUE DORALICE não vinha ter no parapeitos. Abundante. É que sofria horrores entre o primeiro e o sétimo dia com as dores e coisa de mulher. Bodeada, afobada, narinas de fogo. Pedia que Adolfo a trancasse no quartinho do trigo. O branco amansava, apazigüava. Mais ou menos.

RASGAVA TUDO QUE NA DESPENSA tivesse. Grunhia, virava os olhos. Fenda de faca cortante, dor de espinho e amargor. Lástima. Adolfo a compreendia, cuidava e fazia chegadinhas. Era doce. Grude, pamonha, pirulito de enfiar na tábua. Lambia pra espantar a agonia. Ninguém na rua sonhava. Perguntavam por Doralice e se iam. Belo dia, aparecia.

NUM DESSES ESPEZINHOS, CHAMOU pelo Inadequado. Coisa nojenta, asco e muito pior de que o Dissimulado. Propôs troca. Findaria o desafogo, mas por escambo queria os encantos. Todos, dos peitos aos cheiros entre virilhas. Aperreada, desafortunada, apalavrou. O amado nunca soube. Jamais.

HUMMM... POIS FOI. ENTRE O PRIMEIRO e sétimo dia tomou forma de varão. Via-se no espelho e tomava chá de sumiço. Não havia mais dores. Agora, Adolfo choramingava, vigiava volver Doralice. Nunca desadorá-la.

EM UM DAQUELES SETE DIAS, apareceu um varão à janela. Encantador, enfeitiçado, colorido. Era o primeiro às cinco da manhã. Chegadinhas, tapioca, maria-mole. Café e pó de canela. Amargor na boca de Adolfo. Doce esquisito, pensamento diferente. Ela não aparecia. Esperava-a. Espantava o rapaz dali, fechava a madeira e ele insistia desabrido, sem rebuço. Apetecia.

TEVE VONTADE DE SANGRÁ-LO. De matar Doralice e depois se matar. Era homem, tinha certeza, amava a amada. Deu-se o que nunca havia pensado. Deu-se. Acudiu a volta de donanhinha e quis falar-lhe da abastança. Doralice desconversou.


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