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Das Antigas

DAS ANTIGAS

O prego

Demitri Túlio


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09/06/2007 03:40


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EMPUTECEU COM O AVALIADOR da Caixa Econômica dos Penhores. Um leiloeirozinho pago pelo governo pra sugar o que restava de quem estava na pindaíba. O filho-da-mãe nem pôs o monóculo no único olho que enxergava. De cara disse que era coisa ordinária. Desclassificada. Miçanga comprada em qualquer buraco de rato com nome de joalheria.

ORDINÁRIA? QUIS ARGUMENTAR EM tom alto de berros. Há pouco, havia comemorado bodas de prata e até ali os anéis não tinham ficado pretos. Dezoito quilates do mais puro ouro. Resistiu aos enxágües de sabão em barra, aos detergentes e até a creolina utilizada para desinfetar onde o cachorro deixava as sujeiras e carrapatos.

E TINHA MAIS, CASARAM-SE EM um 12 de junho e as alianças foram o que de mais caro o noivo ofereceu à amada. Meteu-a no dedo da recém-esposa com tanta firmeza e peso que algumas das convidadas (casadas e solteiras) acocharam as pernas trêmulas e suspiraram. Gemido silencioso, mas constrangedor nos bancos de madeira da igreja. Os bambolês, grossos, tremeluzentes, provocaram lágrimas.

MAS O LEILOEIRO DA CAIXA não se compadeceu. Rosto esburacado, bigodinho infame, afunilou os lábios, fungou e balançou a cabeça. Miçanga. O marido da senhora a enganou. Sinto. Qualquer falsário dirá do que se trata. Basta cheirar pra ver que não há valor algum. Permita-me a brincadeira, mas é um pouco melhor do que aqueles aneizinhos amarrados por durex que pregam nos chicletes Ploc ou Ping-Pong. Brindes.

SUBIU NAS TAMANCAS AINDA mais. Tomou as alianças, deu uma rabissaca e soletrou um ou dois palavrões. Fula, cuspia fumaça pelas ventas e o ódio que sentiu do funcionário do Prego, na verdade deveria ter outro destino. O marido. Filho-de-uma-égua, dissimulado. Conversa mole igual aos eggs goros. Aos vinte e cinco anos de casados, era um bosta. Nem cama nem trabalho. Por isso, fazia a abestada passar por tamanho vexame. Iria esfolá-lo.

NA PESSOA ANTA, MESMA RUA da Caixa dos Penhores, também havia biroscas de vender e comprar ouro e imitações. Falsários, espertalhões à espreita de desesperados por qualquer tostão. A exemplo do governo, aproveitavam-se dos enforcados. Dos prestes a negociar até as calças fosse preciso. Os abutres sustentavam-se, encostados, nas portas estreitas dos mafuás.

APOQUENTADA, DEIXOU-SE FISGAR por um desses cafajestes. O desespero era munição para o malandro. Antes que ela disparasse, serviu-lhe água em copo aproveitado de geléia Colombo. E antes ainda, tomou-a pela mão delicada apesar do sabão. Perfeita! A aliança? Ela quis saber. Não, a mãozinha da senhorita. Senhora. Retrucou e puxou os dedinhos alvos.

CORTOU A CONVERSA E JOGOU as alianças no balcão de vidro. Quanto vale? Quase nada, sentenciou. Mas podemos negociar a mão que possui o anel! Foi saliente e esperou o tabefe. Ela ia esbofeteá-lo. Pensou e zangou-se novamente com o papelão do marido imprestável. Voltou atrás. Atrás. Negociou o que quis com o falsário e um pouco mais. O homem era abundoso.

O MARIDO IMPLICAVA com leiloeiros e apreciava falsários. Agora, estava claro. Ela também. Toda vida que carecia de um prego, volvia à rua dos Penhores.


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Mais um bom texto de nosso Demitri! Recordar é viver e nisso o jornalita faz muito, muito bem. Parabéns. PCSampaio

Paulo César Sampaio

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