Demitri Túlio
02/06/2007 02:09
NÃO FOSSE O CIGARRO, TERIA findado solitário. Para isso serviu o vício. E uma coisa odiava, não suportava assistir pela tevê ou ouvir dos outros que o fumo matava. Balela. Se exterminasse, teria dado cabo a sua vida mijada. E não foram poucas as vezes que desejou um câncer queimando, como lampejo em palha, o esôfago, os pulmões e tudo que respirasse no corpo. Aos 99 anos, não sabia o que era uma tosse ou gripe.
ESTAVA DESCONFIADO QUE CHEGARIA aos cem anos. Desesperava-se com a possibilidade. Um cigarro atrás do outro falava do aperreio. Antes de continuar, nem sei onde essa história vai ir, quero dizer que menti quando falei que só o cigarro preenchia a falta de companhias. Mentira. Havia um cachorro que também insistia em ir vivendo e um gavião, criado dos cômodos para as goiabeiras do quintal.
OS DOIS TINHAM UMA COISA em comum. Haviam se tornado fumantes dependentes. Obsessivos. Não costumavam ter manias de bichos. E num desses desvios de personalidade, adoravam se trancar na oficina do lampadeiro. Um quartinho apertado, sem janelas, cinza de fumaça e sufoco. Um pito atrás do outro.
DISPUTAVAM TAMBÉM OS VINTES. Nos cinzeiros ou pontas arremessadas. Engoliam acesas. O gavião também furtava dos combogós do banheiro. Cólera para o velho que garimpava os restins de Arizona quando esquecia de reabastecer a despensa. Maços e maços nas prateleiras e uma ou outra carne de lata ou sardinha 88.
O PRÓPRIO LAMPADEIRO NEM ENTENDIA porque não havia botado cachorro e pássaro pra marchar. Assim como fez com mulher, filhos e inimigos. Não havia amigos. E não gostava dessa história de animal querer ser gente. "Vai ser cachorro, cachorro! Ora...". Sequer os alimentava. Água, não! Isso dava. De pequeno ouvia da avó que sovinar copo d´água poderia dar em morte por afogamento ou sede desesperante. Desse fim queria distância.
O CIGARRO, O CACHORRO E O GAVIÃO terminaram sendo o que lhe ausentava. O cão nunca havia latido e, pelas contas do dono, já deveria ter morrido. O pássaro dava conta dos guabirus e, também, dos sanhaços que vinham furar as goiabas. Odiava encontrá-las bicadas pelo bico de qualquer passarinho. Não suportava ouvi-los cantarolar de manhã. Piadeira sem sentido. Nunca amanheciam mal humorados?
ESTAVA CHEGANDO DEZEMBRO. Tempo que fecharia um século. Desconfiava que não ia morrer. Droga! O cachorro também estava mais ansioso, balançava como podia a cauda ossuda e despetalada. Era o mês que mais fumava e mastigava pontas. O velho se enchia de nervosos e sorvia um Arizona (sem filtro) a cada segundo.
TINHA AINDA OUTRA RAZÃO. Nem tudo era nugatório, vão ou ninharias na vida do velho. Dezembro era, também, o tempo da encomenda grande. Nutria prazer, não havia explicações. Mudo. O fazedor de lâmpadas era responsável pelo maior lampadário da praça. Uma árvore enorme de Natal a sustentar candelabros piscantes. Do janelão do aposento, ele, o cachorro e o gavião fitavam o lampadejar. Tremeluzir. E um cigarro atrás do outro... Ainda não seria naquele ano.