Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Das Antigas

DAS ANTIGAS

Apertar as mãos. Roçar a palma

Demitri Túlio


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

26/05/2007 03:58


Clique para ampliar foto


ADORAVA QUE OSCULASSEM O ANEL sagrado de pastor. Principalmente por agradecimento. Homens e mulheres. Era desses caridosos, disposto a se doar aos necessitados. Tão disponível que andava com um apisteiro na batina, espécie de xícara com bico. Semelhante a um bule donde se dava caldo ou apisto na boca do enfermo que não podia levantar.

UM EXÍMIO FAZEDOR DE APISTO. Milagroso. Para mulheres de resguardo, canja grossa de poulet. Franga virgem, nunca coberta, criada no próprio terreiro. Para os rapazes, doses cavalares de gemadas. Uma mistura de ovos serenados de patas, biotônico, leite de cabra do quintal do convento e melaço de alfenim. Erguia Lázaros.

ERA ASSIM. ALÉM DE SACERDOTE, dava de médico e aconselhador na Santa Casa de Misericórdia. Atendia parturientes, mas também deprimidas. Tinha a ver com casamentos infelizes, desencantados, desprovidos de acariciamentos e bobagens corriqueiras.

AS SENHORAS OU MOÇOILAS RECÉM-casadas volviam pra casa saudosas já do dia seguinte. A evolução do tratamento era medido pelo padre através do modo de como avançava o cumprimentar-se. Nada há de mais natural do que um simples aperto de mão. Bem, se dentro das praxes da cortesia até vá lá. Mas, no encontro de duas mãos há mais intenções do que se possa esquadrinhar.

NO PRIMEIRO ENCONTRO, ENCHARCADO de choros (um cavalheiro nunca é o primeiro a estender a mão a uma senhora), as infelizes no matrimônio apresentavam apenas as pontas dos dedos e retiravam-nos rapidamente. Mãos enluvadas. Jogavam-se na poltrona, berros e soluços.

O TRATAMENTO DAVA SINAIS DE melhora quando chegava o dia em que a mãozinha, agora despida da luva, aceitava um ósculo carinhoso e um leve aperto. Via-as sorrir de canto de boca, ligeiramente flectir o pescoço e corar as maçãs da face. A dose de remédio diferenciado vinha a seguir. O apisto era servido na boca pelo padre. As mulheres não aceitavam alta. Filas.

COM OS RAPAZES, PREDILEÇÃO DO milagroso, acontecia parecido. Havia apenas uma diferença. Começavam rudes (imprensavam atleticamente) no aperto de mão, mesmo doentes. Semanas depois, demoravam preguiçosa e languidamente a mão sobre a mão do aconselhador.

INSTANTE EM QUE, LEVEMENTE, o pastor com a ponta do indicador roçava a palma da mão dadivosa. Era a deixa. O paciente começava beijando o anel. Aos príncipes de sangue real ou da Igreja, acompanha-se o beija-mão com um rápido flexionar do joelho direito. Os dois iam abaixo e sem composturas.

POR CAUSA DESSAS SALIÊNCIAS, dia daqueles esteve perto de tomar um sova indizível. Surra ou peia. Veio um marido se queixar da patifaria que o aconselhador fez com a mulher e o filho adulto. Dois pacientes. Depois de muita zoada, moitinhas e latidos, dispensou os solavancos e fê-lo de paciente. Vingou-se.


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato